Doutora

    
    … e eu que sempre te admiro quando passas, tanto mais por breves e casuais que são esses instantes, esses raros esbarrões de quase-nada e já-esqueci; eu bem percebo quanto a ti sou invisível ou, na melhor das hipóteses, pouco importante. Mas meio assim, de ressentida brincadeira, finjo que essa tua indiferença é timidez – e que teus olhos dissimulados me procuram quando os meus já não te seguem. Entenda, é para manter meu amor próprio… 
 
     Mas existem corredores em comum, e neles sempre é que tu passas. Como não querer, então, beber um pouco mais da tua alma,  uns goles que sejam daquilo que teus olhos vêem quando estão fechados, uma xícara de chá do que te faz sair da cama?
 
 
    Tu passas, e me dou conta: o que mais atrai em ti não é o paradoxo do sorriso de menina que te escapa dentre as frestas da tua máscara de gelo, nem as curvas que não sabes ou não tentas esconder. Tua beleza é subentendida, é mais promessas do que entregas, um enigma que oferece escassas pistas, um vislumbre pouco claro de tesouros escondidos lá abaixo, bem abaixo dos teus gestos e trejeitos… desses tesouros que seduzem mais que a carne, desse feitiço que é de Circe e Sherazade.
 
    Teu passar, doutora, é o rastro de um convite para noites muito longas, muito intensas; um parênteses de taças e paixões compartilhadas entre as mãos  entrelaçadas; para bocas já maduras, ocupadas e esquecidas de relógios congelados … mas teu passar também alerta, muito claro e incisivo, quanto a firmes fechaduras que protegem certas portas, e do bloqueio das estradas já trilhadas sem cuidado noutras noites doloridas.
 
    Mas ocorre que tu passas, e em que pese essa defesa que se abriga sob as lentes dos teus óculos, tenho ganas de envolver tua cintura sem licenças ou prenúncios, tomar-te feito um brinquedo, roubar o ar dos teus pulmões, rasgar a rosa dos teus lábios. Tenho a pretensiosa impressão que caberias muito justa no meu peito, bem pequena e encolhida, encantada a olhar as estrelas pela ponta dos meus dedos, sufocando os teus suspiros contra a pele dos meus braços…
   
    Assim, doutora, é quando passas nessa fria cortesia que eu cobiço as tuas pernas e teus beijos, teus cabelos negros e teus batons avermelhados, os encantos e os defeitos que sequer sei eu se existem. E tudo isso, e nada menos, está escrito em cada olhar que te dedico e não devolves…



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6 respostas para Doutora

  1. Cris disse:

    Arlei, antes mais nada não poderia deixar de agradecer o comentário no meu post.
    Estranhamente esqueci de apagar as entrelinhas e vc as leu. Costumo não apagá-las, porque poucas pessoas fazem isso….rs
    Diagnóstico perfeito. Talvez, minha luta nesse ativismo pelos animais tenha criado em mim uma estranha defesa. Eu não sei!
    Não importa… obrigada pelo carinho e pelas palavras!

    Cheguei aqui para agradecer e… que post! LINDO.
    A medida exata de quem não sabe seus limites e conhece toda a liberdade que possui em caminhos sem vetos, com segredos sim, mas nada que não possa ser o mágico do “abracadabra”….rs
    Uma intimidade que desarma, despe, desnuda. Não pela vulgaridade de um desejo qualquer, mas pela intimidade de quem sabe cada compasso e aceitação desse mútuo querer.
    Quase uma brincadeira; um finjo que não sei, eu brinco de não ter certeza, mas eu já conheço os fragmentos dessa explosão.

    Como vc disse, cada um faz uma leitura. Esse seu post, me levou a essa leitura. Errei? Pode ser… vou aprendendo!

  2. NADIA CRUZ disse:

    Paixão!! Desejo!!!
    Como é bom sentir isso…
    Ver passar, o perfume no ar, aquele olhar especial, os cabelos ao vento…
    Com certeza, a doutora em questão, já percebeu, e em breve teremos um outro texto mais revelador ainda…
    Tudo perfeito!!
    Nádia

  3. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Qdo li esse texto só consegui me lembrar das “borboletas no estômago”! E como é bom senti-las!
    Bom, pra mim tem um paradoxo aí, pois, as tais “borboletas no estômago”, nos traz sentimentos de desejo, a gente quer ver, sentir, pegar, observar, e por aí vai, mas também nos faz querer que isso td acabe e que ele (ou ela) esteja logo ao nosso lado para que, enfim, as “borboletas” possam ganhar o mundo em busca da felicidade!
    Como sempre, o texto é lindo!
    Ahh e concordo com a Nádia, a doutora em questão já percebeu, apenas está curtindo um pouco as suas borboletas!!
    Ahh é isso! Minha humilde intepretação do seu post! 😉

  4. arleiro disse:

    Cris, Nádia, Fernanda;
    gosto de pensar que nenhum autor é maior que sua obra (por isso nem sempre gosto de ler biografias, às vezes me destroem uma interpretação pessoal que era preciosa)… como vocês sabem, muitas vezes o escrever serve para limpar a alma de sentimentos sufocados. Hipoteticamente, em existindo realmente uma “doutora”, ela hipoteticamente não teria percebido, ou hipoteticamente não faria questão de perceber… por outro lado, hipoteticamente, alguém que escrevesse um texto assim bem poderia pretender que percebesse…
    – mas por tudo isso ser assim tão hipotético, tudo cabe, “meus versos, no papel, não me pertencem”, e uma hipótese sempre precisa ser provada – mas doutores e doutoras têm uma boa experiência em lidar com hipóteses 🙂

    • Cris disse:

      ha….Nem achei que tinha ou que não tinha. Sempre me deixo levar pelo texto.Pouco importa o que haja de existencial nele ou não! Leio tudo como se tudo fosse real; porque aquele momento em que escrevo e leio é real. É o que há em mim, mesmo que em um canto distante e não lembrado.
      O que importa é a troca que tudo isso gera e germina.
      Permito-me entrar nas palavras que escrevo ou nas que leio….rs
      Quase natal, Arleiro! Feliz noite, feliz natal!

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