Uns braços, uns joelhos…

Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.”

    No conto “Uns braços”, de Machado de Assis (seguramente o melhor escritor que este país já produziu), um rapazote fica fascinado com a visão da pele nua dos braços da mulher de seu patrão, e o potencial erótico dessa exposição de braços é suficientemente provocante para despertar sua libido de adolescente.

    Sim, o conto passa-se em 1870, não havia passistas de carnaval nuas na TV, conteúdo pornográfico na internet, mulheres expondo recônditos e mais recônditos em qualquer banca de revistas. Então uns braços nus por certo pareciam o apelo de uma orgia, isso justifica esta ingenuidade, assunto encerrado, tudo certo?

flowersMas será o pé do cabrito? Ou melhor, os braços do cabrito? Será mesmo que, com o passar dos séculos, o erótico vai mudando de endereço feito um inquilino despejado? Nas trevas da Europa Medieval ou nas teocracias islâmicas de hoje em dia, a exposição de pele feminina tornou-se um crime hediondo. Em ambos os casos, ocorreu um medo ansioso de que mulheres andando por aí com partes do corpo expostas representassem uma tentação demoníaca para os homens, que os deixaria incapazes de resistir.

Bem, se isso fosse verdade a taxa de natalidade na Europa medieval e nas teocracias islâmicas teria de ser muito reduzida, e não parece ser o caso. O fato é que é uma ilusão acreditar que o erótico está apenas na epiderme. Aliás… com a maciça e onipresente revelação de toda as variações anatômicas possíveis para um corpo feminino, não existe mais aquele fascínio quase criptozoológico que os homens viam em uma mulher em 1870. Só que nem por isso a mulher deixou de ser erótica, ao contrário. Se há uma coisa que a banalização da pornografia pode ter trazido de bom, foi a valorização das sutilezas.

    Sinceramente, vários (muito mais do que as mulheres imaginam) homens desta geração não são muito tocados pela mera nudez, pela oferta voluptuosa e explosiva de acidentes geográficos femininos, de um corpo desvelado assim sem mais nem menos, ou dos tamanhos reduzidos de vestuário à la Geisy Arruda e etcs. Uma curva insinuada, a marca da lingerie por sob o vestido… as horas que um homem perde a estender em sua mente aquela marca acima e abaixo, e imaginar onde começam e terminam alguns vales e colinas provocam e sustentam um fascínio bem maior que a entrega rápida e deslavada do que nem se teve tempo para cobiçar.

    E o erótico pode até nem ser carnal, nem ser corpóreo! Não pensem as mulheres que só com elas é que ocorre de um desejo se insinuar inesperado e insuspeito em meio a uma conversa, uma troca de impressões ou à leitura de uma alma derramada em um papel. O lúbrico de um não é necessariamente o de outro. Nem o nosso próprio senso de erótico é imutável, é como um bicho de estimação que carregamos vida afora: achamos que o conhecemos muito bem, que já sabemos os seus gostos e desgostos, que suas manifestações já são bem previsíveis, mas é sempre um animal: a qualquer hora nos surpreende com um comportamento inesperado.

    Joelhos, por exemplo… joelhos não são das estruturas arquitetônicas mais graciosas do corpo humano, aliás podem ser das mais desafortunadas – mas um par de joelhos nunca dantes revelado, que surge de repente no limite da cútis posta à mostra (no final de uma saia ou de um vestido, por exemplo) causa a impressão de um enigma desvendado, ao mesmo tempo em que remete à outro ainda maior por desvendar. Dessas coisas sutis demais para se ajustarem às palavras.

    E as sardas? Hmmm, as sardas… tanto mais essas que, deitadas em berço esplêndido na beirada de um decote, insinuam ao observador que outras há nem sabe-se onde… o que dizer da discreta exposição de uma renda, de um relance só que seja de um cetim ou mesmo de um algodão ou de uma lycra, um relance que revele a cor secreta dessas últimas barreiras? A nuca? As sobrancelhas? Ah, reticências, reticências…

    Uns braços podiam ser a ruína de um homem em 1870… mas eis que umas sardas ou uns joelhos são ainda perigosos, século XXI adentro. A verdade, meus senhores, é que os gênios da humanidade (alinho Machado de Assis entre eles) sempre sussurram segredos eternos e universais. Esperem que ainda vou falar de Shakespeare…

mulher costas

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4 respostas para Uns braços, uns joelhos…

  1. Cris disse:

    Lendo seu post fui tentando recordar-me desse livro. Li há muito tempo e lembro de ter ficado “de cara ” com o conto ousado. O patrão entra na trama com atitudes pouco convencionais para a época…rs

    Interssante! cada um de nós tem um “gatilho” que nos faz gostar ou não. Que nos deixa seduzir ou não. Pode ser um perfume, um filme, um livro, uma roupa, um lugar, mas tudo isso tem alguma coisa que abre em nós os sentidos.
    Nas pessoas a primeira coisa que me atrai são as mãos e não menos o sorriso. A mão tem que ser linda, contar a história da vida, ter as marcas dessa história, falar em gestos. E o sorriso…ah, esse tem que vir com a alma estampada e um convite para o afeto.

    Sempre escrevo algo que não bate com seus posts, né?…..rs
    Ainda bem! Apenas dessa forma posso ficar mais rica. Levo mais coisas, aprendo tantas outras!

    Valeu….

    • arleiro disse:

      Cris;
      Sinta-se eternamente convidada para discordar…
      mas neste caso não sei se discordas, acho que no fundo nós dissemos uma mesma coisa – que não existem estereótipos universais de atração. Poderíamos dizer “uns braços, umas mãos, uns sorrisos…” no teu caso.
      E o que dizer daqueles sorrisos que se fazem no olhar, e não na boca…
      Sempre bem-vinda, abraço!

  2. Fernanda Moraes Catelli disse:

    O legal desse texto (e também dos comentários) é que, ao menos pra mim, fica claro que qualquer coisa pode ser o “estopim” para o surgimento de um sentimento bom ou não!
    Interessantíssimo isso! E instigante também!
    Pra mim são os olhos que me encantam! Olhos penetrantes e misteriosos, que nos convidam a desvendar o que há por trás deles! A possibilidade de descobrirmos um mundo totalmente novo através deles! Adoro isso!
    E, além disso, o que já é comum, o sorriso! Mas, tem que ser aquele que vem da alma, senão, não vale (rsrs)! Gostei d+ do texto, como sempre, muito bem escrito! 😉

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