P.S. Eu te amava. Ass: Sylvia Plath



(…) Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
                                               Sylvia Plath

 

    A escritora irlandesa Cecelia Ahern acertou na fórmula de seu primeiro romance, P.S. – I Love You. Além de um best-seller instantâneo, que toca na ferida ao abordar a necessidade (cada vez mais contemporânea) de buscar no outro razão, incentivo e segurança, seu livro rendeu um filme de bela fotografia, e de uma surpreendentemente bela Hillary Swank.

    O tema fundamental de P.S. I Love You é a herança de registros preciosos, que transcendem o momento em que nasceram e que servem como guias, faróis em tempestades que ainda estão por vir. No caso do personagem surreal que é o falecido Gerry, esses registros formam um manual de luz e de esperança.

 
    O poeta inglês Ted Hughes também herdou registros preciosos quando a esposa, a poetisa Sylvia Plath, suicidou-se pondo a cabeça em um forno com o gás ligado. Sylvia provavelmente era maníaco-depressiva, o que hoje se chamaria de transtorno bipolar. Ao casar com Hughes, era uma sombra do talento do marido. Ao morrer, seu talento talvez o superasse. E com a história de sua vida em contraponto à sua obra, acabaria por eclipsá-lo.
   

    A morte de Sylvia Plath foi em 1963, na cozinha de sua casa. Quanto mais o tempo passa, maior fica seu mito e mais respeitada a sua poesia.   A maior parte do que ficou mas mãos de Hughes eram diários, mas de precioso valor literário. Hughes destruiu boa parte dos escritos inéditos de Sylvia, alegando razões de ordem familiar, sentimentos que não podiam vir a público. Seguramente havia nestas linhas dores pessoais, amarguras e ecos da relação conturbada, mas alguns críticos literários observam que há uma boa possibilidade de que muita coisa tenha sido destruída por Hughes simplesmente porque era de qualidade excepcional – superior demais à sua própria.

    O suicídio de Sylvia criou uma aura em torno de sua poesia, tornando-a, entre outras coisas, uma musa das mulheres que amam demais. Gosto dela, me causa uma instigante perturbação. Sua poesia é interna, confessional, às vezes amarga e depressiva. Plath reeditou, em formas modernas e temas mais mundanos, a dor já expressada trinta anos antes por outra poetisa suicida, Florbela Espanca (já mencionada aqui no blog).

    É muito provável que Plath tenha amado Hughes, até o fim. Era apaixonada por ele desde antes de casarem, quando já admirava seu trabalho. Mas Sylvia era introspectiva, e Hughes um homem sedutor. As traições do marido, em especial com a também poetisa Assia Wevill, feriram-na duramente e acentuaram comportamentos que a doença já instigava. Quando Hughes abandonou-a em definitivo, com os dois filhos pequenos do casal, a própria vida representava uma carga muito grande para ela, e o prenúncio de tragédia estava implícito cada vez mais em sua obra, que paradoxalmente crescia em tamanho e consistência, como se alimentada pela própria depressão.

Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus.
 
     A gravidez da rival Assia foi o último golpe que Sylvia pode suportar, e após várias tentativas enfim acabou com a própria vida no inverno de 1963. Após sua morte, a lápide da sepultura sofreu ataques constantes de vândalos, principalmente daqueles que tentavam raspar o sobrenome “Hughes” da lápide, deixando apenas o nome de solteira “Sylvia Plath” – a opinião popular voltou-se fortemente contra Ted Hughes.  

Se a lua sorrisse, se pareceria contigo
Deixas a mesma impressão
De algo belo, mas aniquilante.
Ambos não têm luz própria.
 

   A obra de Sylvia é dura, freqüentemente pontuada por termos chocantes e uma visão angustiante do dia-a-dia. Sylvia chegava a dizer que devia ter estudado Medicina e não Literatura, para ver “bebês nascendo e cadáveres sendo retalhados”. Hughes provavelmente deve ter encontrado alguns demônios domésticos borrados a tinteiro no espólio de Sylvia:   

 
 Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.

O pecado. O pecado.

Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.

 

 

    Assia Wevill, após a morte de Sylvia, teve de enfrentar um Hughes em tormento pessoal, distante e grosseiro. Esse comportamento, mais o peso da história de Sylvia, acabou por derrota-la, e em 23 de março de 1969, com uma potente dose de pílulas para dormir, imitou Sylvia e suicidou-se, levando consigo para a morte sua filha com Ted Hughes.
 
 
     Hughes passou o resto de sua vida a defender-se da acusação velada de instigar a morte de Sylvia e de Assia, e mesmo sonegando parte da obra da ex-mulher, viu o prestígio dela suplantar o seu. Morreu em 1998, pouco depois de publicar um livro em que tentava corrigir a visão que o mundo tinha dele, contando a sua versão da história, e de ter liberado para o mundo parte não destruída dos diários de Sylvia. Certamente algo da herança escrita de Sylvia foi guardada apenas em sua alma atormentada, e de algum modo o acompanhou pelo resto da vida. Como o mesmo finalmente escreveu a respeito de Sylvia, pouco antes de morrer em 1998: “O teu fantasma é inseparável da minha sombra…”

 
* P.S. Ela te amava, Hughes.
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Uma resposta para P.S. Eu te amava. Ass: Sylvia Plath

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    É impressionante a capacidade com que certos homens, destroem suas amadas…
    Picasso era assim, Onassis também…
    Acho sempre, que é a falta de auto estima que gera esse desamparo, que levam essas mulheres ao suicídio.
    Permitir que uma pessoa nos leve ao fundo do poço, é dar muito poder a ela…
    Bem, cada um sabe de si, mas eu acho que jamais conseguiria me destruir dessa maneira, por um amor.
    Amor próprio é fundamental, e saudável…
    Belo texto, e triste história.
    Nádia

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