Não se pode amar quem não se perde um pouco

 

    Não se pode amar quem não se perde um pouco, pensou o homem de sapatos puídos. Ele perdera uma mulher. Mas quando aqueles sapatos eram novos, nem amor ou perda havia – apenas tempestades, angústias e incertezas. Quando os sapatos ainda eram novos, uma escolha fora feita: agarrou-se a uma só corda, e tudo o mais lhe foi levado.

    Talvez a corda diferente redundasse em um fracasso ainda pior, talvez houvesse ainda menos felicidade do que houve na outra escolha, mas conformar-se com isso era clichê, e a obviedade quase nada confortava. A perdera, e era tudo muito simples: deixou-a partir porque amava outra. Era simples como o inferno, nunca houve alternativas. Mais de cinco anos depois, ainda tinha a certeza de ter sido um erro inevitável.

    Após cinco anos de bom uso, pouco resta de um par de sapatos – mas aquele resistia. Ela soube escolhê-los, ela sabia muitas coisas. Cozinhava. Beijava. Cantava baixinho no chuveiro. Sorria com os olhos. Comprava-lhe bons sapatos de presente. Além de tudo, era linda como uma porcelana. MUITO linda e MUITO porcelana, isso atrapalhava um pouco – mas, cinco anos depois, ele estava ali para ver o que o tempo lhe causara, entre outras coisas.

    Enquanto esperava que ela aparecesse, tentava comer um sanduíche envelhecido no balcão da cantina do hospital, mas o pão áspero arranhava a boca seca: estava seca desde que entrara no hospital, desde que calçara aqueles sapatos, desde que tomara a estrada. Agora, o relógio lhe contava que a veria novamente, e deglutir era impossível. A porta do elevador abria em intervalos regulares, com um som de campainha e o ranger das corrediças: um soco no estômago a cada vez que se fazia ouvir.

    Jogou fora o pão não mastigado, limpando a boca com cuidado. Mesmo que não tencionasse falar com ela, estava inseguro e angustiado como um garoto de escola. Suava, e isso lhe deixava ainda pior, pensando em como podia já estar cheirando mal. Esperava há mais de hora num calor de trinta graus – mas, afinal, tudo o que descobrira era um horário aproximado de saída, e ele sabia que médicos e mulheres (e ela era ambas as coisas) nem sempre são pontuais.

    Houve um tempo em que as verdades eram outras: era ela quem bebia o sumo amargo do relógio. Nunca, nem por um mísero segundo, quis que fosse assim, mas a verdade é que ferira a sua alma num suplício de mil cortes, transformando cada espera em um momento de agonia. Quando afinal batia à sua porta, eram olhos doloridos que lhe interrogavam, era uma boca amarga que lhe implorava segurança, eram pernas hesitantes que a afastavam de seus beijos, até que a carne dela toda amolecesse, numa entrega conformada entre os seus braços.

    Não sabia tê-la amado como acreditava amar agora, bem por isso é que hesitava. Se não fosse só um capricho… buscava uma certeza, pois naquele ponto de sua vida não sentia mais prazer nas miudezas, quase nada lhe aquecia e mais ninguém lhe interessava. Contas feitas, cada um de seus fracassos fora tão revelador e tão intenso que nada novo lhe iludia. Mas ela era diferente, uma renúncia feita cedo, antes do desencanto, do momento sufocante em que se percebe um naufrágio inevitável. Ela fora a única que realmente perdera, que deixara deslizar por entre as frestas dos seus dedos. Fazia meses que sua imagem o perseguia, que as gavetas reviradas lhe entregavam fotos esquecidas, fazia meses que esse dia cozinhava em fogo lento no seu peito. Se pudesse ter certeza, se soubesse que a amava, haveria novamente um porquê em cada manhã, haveria algo bom o suficiente para tentar ainda outra vez.

    Tinha de vê-la. Descobrir onde encontrá-la fora uma tarefa simples, bem mais simples que deixá-la havia sido. E agora lhe esperava, feito um predador no seu ocaso. Não queria lhe falar, lhe escrever, remexer-lhe as cicatrizes, sem ao menos um olhar – e também era preciso abrir janelas em sua mente, desviar o olhar cansado daquele microscópio de lembranças que insistia em ocupar-lhe as madrugadas. Queria vê-la, sabê-la em carne e osso, acreditar uma vez mais.

    Mas ela passou rápido, muito rápido.

    Invadiu-lhe o canto do olhar, num sobressalto incontrolável. Não descera pelo elevador, viera de algum lugar remoto, em meio a um grupo apressado de aventais esbranquiçados. Riam. Estava mais magra, seu cabelo bem mais curto, mas o rosto ainda se erguia altivamente sobre os ombros, como há cinco anos atrás. Usava um aparelho ortodôntico tardio, que pintava o seu sorriso de lampejos cor de aço. Se o viu, não deu por isso – acompanhou o grupo que cruzou a porta de entrada numa alegre despedida.

    Seguiu-lhe os passos rápidos, fascinado, voando sobre os sapatos envelhecidos. Naquele momento, ela era tudo o que existia. Deteve-se na entrada do estacionamento, observando-a caminhar em passo sincronizado com um colega muito jovem ao seu lado. Sorria para ele do mesmo modo que tantas vezes lhe sorrira, nos breves e indevassáveis momentos de paz… e isso o atingiu como uma agulha. Trocaram um breve abraço, e separaram-se sem olhar para trás. Enquanto ela dava os últimos passos em direção ao carro, olhava para o chão como quem remói um derradeiro pensamento.

    Instintivamente, desejou que ela não estivesse apaixonada por aquele rapazola. Quando curvou-se para depositar alguma coisa no banco traseiro, todas as linhas da silhueta ficaram explícitas, demonstrando que ela continuava a ser uma falsa magra, de seios pequenos mas músculos rijos, e que a genética sem dúvida a manteria assim por toda a vida. Ao levantar-se, fez uma pirueta com a cabeça para pôr a franja no lugar, abriu a porta do motorista e entrou no carro com um movimento rápido das pernas.

    Agora ele a desejava… o estímulo visual reavivara as cores nas imagens acinzentadas da memória. Aqueles dois ou três minutos em que a vira trouxeram de volta horas e horas de emoções já esquecidas; as semanas que precederam os primeiros beijos, todo o modo trôpego e oblíquo com que foram se aproximando, as noites em claro, a ternura e a luxúria, e por fim o gosto amargo das mortalhas revolvidas… dos momentos de indecisão e das palavras mal escolhidas em instantes de desespero. Agora ela era a estrela inatingível, era o encanto inapelável das promessas não cumpridas.

    Assim que o carro apequenou-se no horizonte, realmente ele era outro. Mas não aquele que pretendera. Não descobrira a certeza de amá-la, mas a de que poderia amá-la agora. Só que havia outros meandros, outras vielas obscuras cujo relevo lhe era estranho. Sabia que havia uma chama ainda acesa, uma chama com o qual poderia tentar reconquistá-la, mas também sabia que a dor de uma derrota neste propósito seria menor, infinitamente menor, que tê-la em seus braços uma outra vez e uma outra vez perdê-la.

    Era assim. Percebeu que esse medo dos recantos muito escuros era indelével como o puído dos sapatos. Não poderia se ver livre dele. O que mais o machucava era conhecer a própria cela, entender a armadilha que o prendera. Se realmente a amava, era porque a perdera? Ainda a amaria se a tivesse tão sua, tão entregue e tão segura como fora um dia? Ama-se com a mesma intensidade o que nunca se perde, nem por um instante? Não sabia responder se valeria pena trocar esse amor de agora, esse amor em potencial que lhe devolvia a vida e a vontade, por um salto em queda livre no passado. Que restaria de sua alma se falhasse?

    Ainda não havia uma resposta. Ou havia todas. Descalçou os sapatos e as meias, tomando-os displicentemente na mão esquerda, e saiu a caminhar nas pedras quentes, de encontro ao pôr de sol. Que era belo agora, como há muito já não era. Não se pode amar quem não se perde um pouco…

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7 respostas para Não se pode amar quem não se perde um pouco

  1. Gi Cano disse:

    Oi Arlei, valeu pelo comentário, essa tb é minha versão preferida, quer melhor Scrooge do que o Tio Patinhas? (que no original se chama Uncle Scrooge!). Mas a verdade é que adoro essa história e assisto toda e qqer versão que esteja a mão.
    Nossa, agora fiquei até meio intimidada em escrever sobre, seus post são sempre incríveis e de uma qualidade bem superior, rs, mas fazer o que, é o único livro relacionado ao Natal que eu li ultimamente, rs
    Bom, é isso aí, mais um ano acabando, rs, apesar de adorar essa época do ano me dá sempre uma tristezinha por ser um ano a menos na minha vida 😦
    Tb te desejo um Natal lindo com suas filhotas (crianças sempre dão vida ao Natal) e um Ano Novo repleto de novidades.
    Valeu pela força e incentivo.
    Bjos
    Gi

  2. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Os seus textos me fazem tão bem! Refletem a realidade! Em algumas passagens parece que estou “lendo” a história da minha vida!
    Sei que já está ficando repetitivo de minha parte, mas não há o que comentar! Parabéns mais uma vez!
    E como disse a amiga aí de cima: Um Feliz Natal pra vc e suas filhas! E toda sua família!
    Bjos

    • arleiro disse:

      Fernanda;
      ótimo Natal para ti também! Tua presença já tem um quê de “vá entrando, que é da casa…” 🙂
      Ás vezes a realidade só nós pede voz, Fernanda… ela vai esmurrando o peito por dentro e pedindo para sair. Por isso não te preocupe, vou continuar sim… faz bem demais.
      Um maravilhoso 2011 para ti!

  3. NÁDIA CRUZ disse:

    Bem, certas decisões são para sempre…
    Podemos olhar para o passado com um gosto amargo de remorso, ou mesmo de conhecimento que determinado ato, era necessário naquele momento.
    Vivi isso, e doeu muito…
    Não conseguir viver junto, mas também não conseguir se separar…estranho, né???
    Talvez fosse doença…esses amores doentes, e loucos…
    Passou…
    Como sempre, gostei muito!
    Nádia

  4. Cris disse:

    Nossa, fui lendo seu texto e imagens mil se passavam na minha cabeça. Recordei-me de coisas que vivi.
    Os sapatos… ah, tenho uma história tão minha, tão linda e tão saudosa com um par de sapatos!
    Estranho, como as pessoas remetem-nos a fatos que estavam tão arquivados na nossa gaveta de lembranças.
    O que um sapato não faz? Não fez ao personagem do seu conto!
    De repente iluminou-se a famosa e terrível condição “se”… esse “se” é de matar!
    Vc disse que ele nunca a perdeu, porque a deixou escapar por entre os dedos. Senti que vc disse isso, porque não ocorreu o desgaste, o “tiro de misericórdia”. Alguma coisa mais forte ficou para ser vivida, sobreviveu. Ficou no ar e pelo visto, sem respostas, sem conclusões, sem a última demão!
    Situação desconfortável. Sempre é. Se…
    Rever, tentar reviver, voltar ou apenas mais uma vez deixar que passe por nós?
    Fui lendo seu texto e uma angustia foi brotando aqui…rs
    Melhor que se viva o agora como único e para sempre e que esse para sempre seja findo no próximo segundo. Acho que essa é a única forma de não sentir essa angustia.
    Amei o texto!
    Beijo pra vc !

  5. arleiro disse:

    Cris;
    obrigado pelo prazer da tua visita… sem querer tirar o direito de cada um interpretar o que escrevi como bem entende (pois “os meus versos, no papel, já não me pertencem”), acho que o “se” é o uma das coisas que torna a vida mais bela e valer a pena ir em frente, mas depende de como cada um encara o “se”. Há angústias que valem a pena, e uma vida sem angústia nenhuma também não vale a pena. É o “morte devagar” da Martha Medeiros…
    Volte sempre!!!!

    • Cris disse:

      Acho que o “se” só vale à pena se não vier como “carga pesada”.
      Sei lá eu, fui aprendendo na minha vida que tudo precisa ser feito agora. Daqui um minuto poderá ser tarde demais. Talvez, minha vida, o ritmo como ativista tenha me deixado certas maneiras de agir e ver as coisas por um ângulo que nem eu mesma conseguiria há tempos atrás.

      Todo mundo vacila, todo mundo carrega suas anguistias, dores, lamentos, mas acho que isso precisa ser digerido. Resolvido. Ainda que fiquem cicatrizes.
      Bagagem leve me garante uma caminhada mais fácil…..rs

      É isso ou, nada disso!…….rs
      cada um , um universo!
      Voltarei…

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