Tulipas

Ainda lembro a primeira vez que decidi dar flores a uma moça. Pleno destas boas intenções, mas totalmente ignorante das artimanhas, entrei na floricultura como quem desbrava as selvas do Gabão, parvo e desorientado. Fui obrigado a solicitar auxílio técnico: um pouco constrangido, pedi à vendedora que me ajudasse na escolha. Com um olhar de tédio e impaciência, ela providenciou um buquê cafona do qual recordo apenas a quantidade absurda de papel celofane e “mosquitinhos”. Acho que no fundo, bem lá no fundo, havia rosas, mas confesso não ter certeza. Olhei para aquilo com um pouco de desconfiança, mas fazer o quê… não admira que não tenha produzido o resultado esperado.

    Depois disso, e de outras experiências mais construtivas, consegui refinar um pouco meu conhecimento do mundo floral, e a fazer a transição do “mandar flores” para “escolher flores”. No universo dos objetos de desejo feminino, flores são o planeta ao qual me sinto mais aclimatado- escolher jóias ou similares, por outro lado, sempre foi uma tarefa árdua para mim. Acredito que isso se deva ao fato de já ter estabelecido minhas próprias preferências, o que não é verdadeiro em relação à jóias e similares, por exemplo.

tulipa vermelha    Assim, aprendi que rosas são flores triviais – mas que, contudo, tem lá seu potencial. A seu favor conta a vantagem de estarem disponíveis praticamente o ano inteiro e em qualquer lugar. Além disso, rosas são os pretinhos básicos do mundo vegetal: até uma rosa vermelha das mais comuns jamais será inadequada (embora eu ache mais impactantes as rosas de tom laranja). Gérberas, orquídeas, flores do campo… seja qual fora o espécime escolhido, não gosto de buquês imensos, repolhos multicores do gênero “melancia no pescoço” – aprendi a torcer o nariz para os arranjos muito plásticos. Um ramalhete de flores sem quaisquer outros adornos, enrolado em papel pardo e oferecido de surpresa, tem uma graça típica que remete ao inopinado, ao natural e ao sincero.

Mas, de tudo isso, aprendi a ter um carinho especial pelas tulipas. Temos algumas coisas em comum, como o fato de não suportar muito bem o calor.  O nome “tulipa” é originário da Pérsia e significa primariamente véu ou turbante, pela sua semelhança com um. Importada do oriente para a Europa, explodiu em popularidade na Idade Moderna e tornou-se símbolo de um país ao qual originalmente era estrangeira, a Holanda. No Brasil, tulipas são ainda mais charmosas pela dificuldade em adaptação ao clima local, embora avanços técnicos de cultivo tenham tornado as tulipas mais populares, a ponto de freqüentarem as gôndolas dos supermercados (pagando o preço com uma perda no viço das cores).

    A tulipa é um achado.  É a tradução floral da beleza em sua essência: simplicidade, charme e harmonia. Particularmente, as mulheres que mais me atraem são como tulipas: nem exuberantes demais, nem prolixas demais, nem insossas demais. Uma tulipa tem um design simples, uniforme e elegante sem ser esnobe. Sua paleta de cores é ampla, mas forte e coesa. Não se abre para todos os lados, mas em uma única e decidida flor de seis pétalas. Não se adapta bem a arranjos formatados, seus encantos plenos só se revelam a quem lhes dedica cuidado e atenção. Através de seleção genética cuidadosa, há varios matizes de tulipas disponíveis hoje em dia – as mais tradicionais e populares tem tons entre vermelho e amarelo, mas é difícil não ficar encantado com a misteriosa tulipa negra.

black tulip    Seja qual for a sua cor, tulipas (e mulheres-tulipa) sempre me roubam a atenção, mesmo que estejam perdidas no meio de centenas de outras flores ou mulheres de beleza mais derramada. Rachel Weisz é um bom template de uma mulher tulipa, eu não seria capaz de tirar os olhos dela mesmo com um bando de Angelinas, Megans, Jessicas e outras similares esvoaçando ao meu redor.

   Infelizmente, tanto pela indisponibilidade quanto pela necessidade de um vaso, tulipas não são o tipo de flor mais adequada para um impulso inesperado. E, de fato, mulheres-tulipa também não são se adaptam muito bem a momentos de desatino ou inconseqüência – precisam ser levadas para casa, bem acomodadas e vigiadas quanto às suas necessidades… ah, ao contrário das rosas, é possível (com paciência e boa dose de sorte) preservar bulbos de tulipa para uma nova florada, e assim perpetuá-la por um tempo infinito enquanto dura.

    Do mesmo modo, mulheres-tulipa mostram pouco, mas escondem muito. Podem acordar um belo dia estrondosas feito rosas colombianas, como se gritassem: “eu também posso se eu quiser”, enquanto as rosas já murcharam e feneceram, num desencanto que não tem mais volta. E mesmo que se apaguem, jogando ao vento as suas pétalas, só precisam de fidelidade e dedicação para voltarem esfuziantes e maravilhosas.

    Não posso deixar de registrar que a imagem de um campo de tulipas me fascina – tenho cá comigo um fetiche de sair correndo feito louco no meio de um deles. Levando em conta o ícone das mulheres-tulipa, deve ser, com certeza, um símbolo que  um psiquiatra junguiano talvez possa desvendar….

tulip_field* pensando bem, o fetiche completo é correr como um louco em um campo de tulipas atrás da Raquel Weisz…

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8 respostas para Tulipas

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    Texto lírico e simpático…
    Gostei muito!!
    Em tempo…TULIPA é minha flor favorita…
    Nádia

  2. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Gostei muito do seu texto! Acho que é original, autêntico e, principalmente, sincero! E esta última qualidade é a que mais me atrai!
    Acho que toda mulher gosta de receber flores mas, nem todos os homens tem o “insight” pra enviá-las!
    E só pra constar, eu gosto muito das tulipas mas, as violetinhas (de mercado mesmo) tbm me encantam!
    Bjos

  3. Gi Cano disse:

    Adorei o post!
    Adoro flores mas sou bem clássica gosto de rosas (de preferência brancas) e gérberas (adoro as amarelas), mas se vc gosta de tulipas vai amar as fotos que tirei na minha viagem, se tiver facebook ou orkut me procura lá e dá uma olhada, estive nesse lugar aí onde tem o parque das tulipas.
    bjos

  4. Greize disse:

    Olá.vi seu Post no Crônicas da Paula, gostei tanto que passei por aqui.E Estou lendo aos poucos, porque leitura me leva para longe.Dei de cara com Tulipas minha flor preferida e que todos dizem que sou diferente!!Por que??Tão linda e suave, e simples.Algum problema de uma mulher não gostar de rosas vermelhas??Rrss
    Abraços

    • arleiro disse:

      Greize;
      Problema algum… e está nos homens descobrir a sutileza do gosto de cada mulher, o que pode ser melhor que isso?
      Sobre Beethoven, já deves saber que ele compôs a 9a. sinfonia COMPLETAMENTE surdo, o que significa que cada semínima, cada colcheia, só foi ouvida em sua mente, e a imensidão dessa obra só aumenta o assombro… mas isso ainda vai dar um post aqui no blog! Seja bem vinda e apareça sempre!

  5. Greize disse:

    Quando pensar no Post, não deixe de assitir antes um filme sobre ele, MINHA AMADA IMORTAL, não sei se a amada existiu, mas tem mtos fatos verídicos e o ator Gary Oldman, arrasa.Mostrando toda furia de Beethoven.Sempre amei música clássica, pois não nasci com problemas de audição, assim como ele.Abraços

    • arleiro disse:

      Greize;
      já vi este filme, sim. A “Bem Amada Imortal” é um grande enigma do mundo da música, este nome vem de uma carta que Beethoveen escreveu e nunca enviou, ninguém tem certeza exata de quem era esta Amada, o filme sugere uma hipótese dentre tantas.
      Eu adoro música erudita também, e embora seja fã declarado de Bach, gosto das sinfonias de Beethoveen, que são muito intensas e tem mais a ver com nosso estilo de música moderno. Aguarde que o post sobre ele está na lista! Obrigado por tua presença aqui.
      Abração.

  6. Brilhante. Não poderia passar por aqui e deixar de falar sobre esta parte:
    “A tulipa é um achado. É a tradução floral da beleza em sua essência: simplicidade, charme e harmonia. Particularmente, as mulheres que mais me atraem são como tulipas: nem exuberantes demais, nem prolixas demais, nem insossas demais. Uma tulipa tem um design simples, uniforme e elegante sem ser esnobe. Sua paleta de cores é ampla, mas forte e coesa. Não se abre para todos os lados, mas em uma única e decidida flor de seis pétalas.”
    A sua definição sobre as tulipas foi a mais tocante que já encontrei:

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