Paulo Coelho com ketchup

Quando o assunto é o escritor brasileiro Paulo Coelho, o debate sempre é acalorado. Entre as muitas facções que se alinham com defensores ou detratores, há duas que chamam a atenção: os que nunca leram e não gostam de Paulo Coelho, e os que leram e amam Paulo Coelho.

Quanto a mim, não pertenço a nenhuma das duas: eu li e não gosto de Paulo Coelho. Não o detesto nem tenho vontade de queimar seus livros em praça pública – apenas não gosto. Não me acrescenta muita coisa, nem mexe com meu emocional. Ouço manifestações de pessoas encantadas, que se emocionam de verdade com o que ele escreve. Tudo bem, romances são uma forma de arte, e arte é aquilo que nos toca. Não posso e nem vou ser indelicado ao ponto de criticar o gosto de alguém (não gosto nem um pouco de dobradinha ou de uísque, por exemplo, e nem por isso vou criticar quem gosta). Contudo, se o mérito da questão for valor literário, talvez haja parâmetros reais para um debate.

    A minha visão pessoal e intransferível é a de que a obra de Paulo Coelho coloca na boca das pessoas uma versão pastosa e mais facilmente digerível de conceitos e insights que estão diluídos de modo muito mais sutil na literatura e filosofia universais. Acho que é algo como um indutor de epifanias versão fast-food. Não há nada novo em Paulo Coelho, nada, por exemplo, que não se encontre em Shakespeare ou Dostoievski- só que abstrair Shakespeare dá muito mais trabalho e exige muito mais dedicação. Ler Brida ou O Alquimista é simples, não há grandes mistérios nas entrelinhas, nem linguagem rebuscada. É possível levar anos para extrair revelações pessoais a partir de Hamlet, por exemplo, mas quase todos que amaram O Alquimista dizem ter descoberto coisas importantes desde antes da última página (não são muitas páginas, de qualquer modo). Mas outra grande diferença é que o caminho feito pelos leitores de Hamlet exercita muito mais a sua capacidade de pensar.

   Mas tudo bem. Acho até que Paulo Coelho salva muita da gente da omissão literária total, e é melhor ler fast-food epifânico que não ler nada. Contudo, bem que seus leitores podiam usar Coelho como um trampolim para coisas mais elaboradas – há muito, mas muito mesmo, a ser descoberto em outros objetos retangulares cheios de páginas que não tenham o nome de Paulo Ceolho na capa. Isso é acumular riqueza interior, a única que não nos pode ser tirada  – aí sim, e somente aí,  eu critico aqueles que acham que ler Paulo Coelho é desvendar todos os segredos do universo.

    Não gosto dos erros de concordância dele, mas o que menos me agrada em Paulo Coelho é sua falta de originalidade. Ele não é, ao contrário do que pensam alguns leitores, um grande gênio que descobriu verdades novas ou inventou um jeito novo de contar verdades antigas. Em alguns livros, seu estilo e temática imitam as narrativas orientais, especialmente a tradição árabe e judaica (e para quem gosta deste estilo, ler o texto original de Mil e Uma Noites, traduzido pelo árabe-brasileiro Malba Than, seria um grande upgrade). Em outros, apesar da linguagem e temática mais moderna, o modo “fábula” ou “parábola” ainda predomina. Ninguém em sã consciência pode dizer que o estilo de prosa comum e viciada de Coelho está à altura da verdadeira revolução de linguagem de um Guimarães Rosa, por exemplo (contudo, os dois tiveram a honra de sentar na Academia Brasileira de Letras…)

livros literatura

    A temática  de Paulo Coelho só é revolucionária para quem nunca leu muito do universo literário esotérico, e irrita um pouco quem não está procurando lições de moral ou os segredos da existência. Mas mesmo quando foge do misticismo e do messiânico, Paulo Coelho não apresenta nada muito novo. Veronika Decide Morrer é muito inferior a outros livros ambientados em sanatórios, como A Montanha Mágica ou Um Estranho no Ninho.

   Quando adolescente, li um livro chamado Sete Minutos. Apesar de ser escrito por um calejado produtor de best-sellers (Irving Wallace), na linguagem e redação típicas deste estilo de romance, tinha uma idéia central muito original, que girava em torno dos “sete minutos” do título, e que significavam a duração de um ato sexual. O livro, muito conhecido nos anos 70 e 80, abordava exatamente questões pertinentes às visões do sexo como algo profano ou sagrado. Pois bem. Há alguns anos, fui supreendido pela notícia de que Paulo Coelho lançou com grande estardalhaço uma obra revolucionária chamada Onze Minutos, referindo-se este título à… duração de um ato sexual e falando de…  visões do sexo como algo profano ou sagrado!!!

    Finalizando minhas reflexões paulocoelhanas, não posso deixar de registar meu espanto ao descobrir um grande número de admiradoras conjuntas de Paulo Coelho e Clarice Lispector (de quem já falei no blog). Nem é questão de não ver nenhum ponto em comum, mas de entender como alguém que se fascine com a prosa complexa de Lispector consiga ainda achar graça em Coelho… humildemente, tenho de admitir que há algo na obra de Coelho cuja percepção deve me escapar, no duro.

tongue knot    Bom, se não faço coro com o prestígio internacional  de Paulo Coelho, ao menos me divirto ao ver os estrangeiros tentando decifrar a pronúncia de “Coelho” (o lh é um patrimônio gráfico da língua portuguesa), ouvir na TV um entrevistado em uma livraria de Nova York soltando um “Póulo Coel-rro” foi uma experiência muito divertida.

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2 respostas para Paulo Coelho com ketchup

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Eu não poderia deixar de concordar com vc! Assino embaixo desse texto!
    Qdo eu era adolescente li um livro de Paulo (Nas margens do Rio Piedra Sentei e Chorei) e, na época, mexeu demais comigo, nossa virei fã dele! Alguns anos depois, a medida que a “literatura da boa” foi se fazendo presente em minha vida, o encanto foi passando e, hj, sou indiferente a Paulo Coelho.
    Os exemplares que eu tinha já não estão comigo, foram todos doados para a biblioteca da minha cidade (que é conhecida como a “Cidade do Livro”, visto que tem mais livros lá do que habitantes na cidade). Espero que essa doação ajude alguma adolescente por aí e a faça sentir vontade de ler a tal “literatura da boa”!
    Bjos

  2. Gi Cano disse:

    Eu estou no seu time tb, li e não gostei. Li apenas o citado Veronika decide morrer, isso qdo eu era adolescente, achei um livro legal e tal pela redenção da personagem ao perceber que qdo realmente decide viver…está condenada à morte! Bem dramático e nada novo, não me identifiquei pq sou uma pessoa muito pra cima e não tem como me identificar com alguém que quer acabar com a própria vida.
    Mas enfim, não vou falar de qualidade na escrita pq não sou entendida mas acredito que ele deixe muito a desejar, fora isso eu não consigo entender como um cara desses pode ter se tornado tão famoso e milionário, como vc disse, sem ter criado algo completamente novo de sua própria cabeça.
    Qdo vemos autores como a mais contemporânea JK Rowling, que além de uma capacidade de criação fantástica ainda escreve muito bem, não dá pra entender como o Paulo Coelho pode ter-se tornado igualmente milionário.
    Assim como vc eu tb acredito que toda leitura é válida, de repente as obras dele serviram de introdução pras pessoas conhecerem outros títulos e autores tb, vendo por esse aspecto ele não é de todo mau, rs
    bjos
    Gi

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