As palavras mágicas…

te amoEm qualquer língua, é uma frase curta: “I love you”, “Je t’aime”, “Ich liebe dich”, “Yo te amo”, “Eu te amo”. Contudo,  pode ser uma das frases mais difíceis de se dizer a alguém.
 
 
O personagem Sam (Patrick Swayze), do filme “Ghost” é incapaz de fazê-lo: sempre que a esposa Molly declara seu amor, tudo o que faz é balbuciar um “idem” (Han Solo, de Star Wars, responde de modo mais canalha à princesa Léia: “eu sei”). Em um tempo de coisas, criaturas e relações superficiais como o nosso, pronunciar “eu te amo” tornou-se tão clichê que, surpreendentemente, gerou um efeito contrário: a sua própria rejeição.
 
 
É uma situação relativamente comum: em meio às inseguranças e incertezas de uma relação mais séria, declarar ou responder “eu te amo” costuma ser uma questão angustiante. Para quem toma a iniciativa, porque é necessário saber o momento exato de fazê-lo; para quem deve responder, porque o submete à expectativa de uma retribuição, que nem sempre seria sincera. Na prática, “eu te amo” torna-se uma frase perigosa, que pode provocar reações inesperadas e até mudar rumos na relação – daí decorre a hesitação em verbalizá-la.

 

 

Uma opinião extrema que ouvi foi já ouvi foi a seguinte: “Ah, eu nunca digo ‘eu te amo’, porque acho que banaliza o que é amor, só vou dizer no dia em que realmente tiver certeza”.

Mas como é que alguém “tem certeza”? Para mim, a própria definição de amor é impossível e imensurável. As hesitações do presente convertem-se tão facilmente em arrependimentos no futuro…

olhai os lírios do campoO personagem Eugênio passa toda a primeira metade do romance Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, a correr contra o relógio para chegar no hospital em que a mulher que ama está para morrer, rezando para que ao menos tenha tempo de prestar uma declaração de amor que sonegou por vários anos – e no final acaba sendo tarde demais. Na letra da música “If Tomorrow Never Comes”, do cantor country Garth Brooks, um amante insone olha para a parceira adormecida e se pergunta: … se eu morrer antes do dia de amanhã, será que ela saberá o quanto eu a amo? Será que ela saberá o que significou para mim? No silêncio do quarto, ele continua sua reflexão:

‘Cause I’ve lost loved ones in my life /Who never knew how much I loved them / Now I live with the regret / That my true feelings for them never were revealed / So I made a promise to myself / To say each day how much she means to me / And avoid that circumstance / Where there’s no second chance to tell her how I feel…

(traduzindo meio livremente: “porque eu já perdi vários amores em minha vida que nunca souberam o quanto eu as amei, e agora eu vivo com arrependimento porque jamais pude revelar meus verdadeiros sentimentos por elas – então eu fiz uma promessa a mim mesmo: dizer todos os dias o quanto ela significa para mim, e evitar a possibilidade de que não haja uma segunda chance de dizer a ela o que eu sinto). 

the kiss rodinBem, Vinícius de Moraes teve um grande insight ao dizer que o amor “não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Não acho que se deva procurar certezas e grandiosidades em um sentimento para rotulá-lo, embalá-lo e oferecê-lo em uma bandeja a um suposto digníssimo e extenuado merecedor. “Eu te amo” ou qualquer frase similar não deve ser banalizada, é claro, mas deve ser dita quando se tiver vontade, sem esperar resposta. Quando ela nos escapar dos lábios, devemos imediatamente manter ocupados os lábios da(o) destinatária(o) com um beijo demorado – isso impede silêncios ou respostas frustrantes, e não coloca o outro em uma posição em que seja obrigado a se manifestar, mesmo que não esteja pronto para isso ou que não seja habituado ao mesmo nível de extroversão sentimental (além disso, há melhor forma de pontuar “eu te amo” do que com um beijo?).

Arrependimento do que não foi feito é muito mais daninho do que o oposto. Mesmo que não haja uma tragédia como a de Eugênio no caminho, pode não haver outras chances. E o amor não assumido que se descobre a posteriori é um dos sentimentos mais doloridos que se pode carregar pela vida afora.

OBS: os italianos tem uma saída muito elegante para os dilemas do “eu te amo”: em italiano existem duas formas para expressar esse sentimento, “ti voglio bene” e “ti amo”. “Ti voglio bene” poderia ser traduzido literalmente como “te quero bem”, mas na prática também é reconhecido como uma forma sincera de expressar um sentimento – satisfazendo perfeitamente os ouvidos do(a) parceiro(a), enquanto pode-se guardar um “ti amo”, que é usado na expressão de coisas mais físicas, na manga… sabem tudo esses italianos… Bacci!

gondola venice

Anúncios
Esse post foi publicado em Literatura, Poemas, contos e crônicas e marcado , , . Guardar link permanente.

5 respostas para As palavras mágicas…

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    Os italianos são sábios…rsrrs
    Nunca tive dificuldades em expressar meus sentimentos, porém já quebrei a cara por isso…rsrsr
    Mesmo assim, não me arrependo de ter dito.
    Bom texto!
    Gostei muito!
    Só mais uma coisa…concordo com o nosso poetinha..amor é chama!
    Um abraço
    Nádia

  2. Gi Cano disse:

    Eu já tive muita dificuldade em expressar meus sentimentos, provavelmente por medo de rejeição. Mas hoje em dia eu não consigo mais entender pq era assim, pq as pessoas são assim, é triste qdo vc percebe que perdeu aquele momento perfeito de falar o que sente e não ter mais forças de fazê-lo depois. Falo tudo hoje, digo e repito, não quero me arrepender de nada no futuro.
    Mas acho que é natural do ser humano, a gente precisa amadurecer para entender essas coisas e perder esses medos, rs

    • arleiro disse:

      Gi;
      também penso que devemos ter menos medo de expressar… como você disse, quando a gente amadurece perde alguns medos -mas acredito que amadurecer também é saber lidar melhor com os medos que ficam (e alguns não podemos perder, por questão de sobrevivência emocional), e é desse equilibrio entre o medo e a coragem que nasce o friozinho mágico na barriga que faz tudo valer a pena, não é mesmo?
      Abração!!!

  3. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Eu também nunca tive medo de expressar o que sinto! E também já me ferrei muito por isso! Mas a vida é assim não é?! Cheia de erros e acertos!
    Se bem que qdo se trata de sentimentos não há erros e acertos!
    Prefiro me arrepender de ter feito do que de não ter feito! Este último dói mais! Corrói a gente por dentro!
    Hj, mais madura, acho que consigo saber melhor qual o melhor momento para falar do q eu realmente sinto! Meu Pai vive me dizendo que tem coisas que só a maturidade faz por vc né! Concordo com ele! E, concordo, também, com seu texto! 🙂
    Bjos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s