A garota de pijamas

  
    Abriu-me a porta vestida em pijamas, em pijamas de flanela…! Abriu-me a porta não como a mulher alta, de gestos bem medidos e olhar seguro que eu conhecia… abriu-me a porta como uma menina sonolenta e embaraçada. E não sei o que foi mais doce: o modo tímido como deitou a cabeça sobre a porta, ou o borrão em rosa-sangue que lhe inundou o rosto.
  
     E eu, que jamais a vira assim, tão desarmada e indefesa, emudeci em admiração. Ela fez um esforço para recuperar a compostura, levantando os ombros e as sobrancelhas (lindas sobrancelhas, naturalmente desenhadas, na espessura certa). Estendi a mão, revelando um pote de sorvete e um par de taças coloridas.
 
    Ela balançou a cabeça, contraindo os lábios num rascunho de sorriso – e nossos olhos se entrelaçaram. Há várias semanas que esses olhos se chocavam, mas era uma dança mal treinada, uma física de pólos opostos que de imediato se repeliam, um burburinho de não-ditos que partiam de ambas as retinas e eram brutalmente emudecidos com desvios mútuos de olhar. Eu sempre soubera que ela tinha um namorado… ausente, geograficamente distante, mas era um namorado. Isso tornava desconfortável minha aproximação, e a ela também – como vim a saber, tínhamos alguns freios morais em comum.
 

    Mas… nada mais havia a fazer, exceto convidar-me a entrar – o sorvete derreteria se eu ficasse ali parado a noite toda. Ela já estava recomposta, já era a mulher altiva de sempre, que levava vinho à boca sem jamais olhar para a taça (os jantares organizados pelos amigos comuns eram toda nossa história até ali…). Do mesmo modo seguro, tomou-me o sorvete das mãos e indicou o sofá. Deslizou para a pequena cozinha, enquanto eu me acomodava e tentava pedir ao coração que acalmasse o ritmo.

   E da cozinha, tão distante como fosse outra galáxia, quebrou nosso silêncio, dizendo-se surpresa. Com um sorriso que ela não via, disse que lamentava ser inoportuno, e iria embora logo. Naturalmente, ela já esperava que eu dissesse isso, tinha uma boa noção de timing e sabia como encaixar cada fala – não disse nada até retornar da cozinha com as taças servidas na mão, deixando por alguns segundos a resposta pairando no ar- os segundos necessários para que sentasse à minha frente, cruzando as pernas sob o corpo, e só então se manifestasse: “mas foi uma ótima surpresa”.

    Instintivamente, tal como nos clichês de linguagem corporal, girei o corpo em sua direção. Havia apenas um sofá de três lugares, a cada um coube uma extremidade e uma almofada de algodão cru. Dobrei uma das pernas para tornar a posição mais confortável e contemplei-a sem pressa, enquanto levava a primeira porção de sorvete à boca: o pijama já não era novo, estava parcialmente tomado por pequenos grumos da flanela, mas era mais atraente do que um vestido de alta costura ou um bustier de sex-shop. Era de um amarelo suave, em tom pastel, entremeado por cândidos ursinhos e seus balões de gás multicoloridos. Cobria-lhe braços e pernas (afinal já era outono), pouco mostrando de sua pele muito branca, mas colando-se ao corpo o suficiente para sugerir o contorno suave de suas curvas e marcar a lingerie que estava abaixo.

    E agora os olhos não fugiam mais… era um momento tão singelo, tão despretensioso (a comunhão de um sorvete com uma garota de pijamas) que certas convenções ficaram abolidas. Percebi que já amava seu cabelo: originalmente, devia ser de um castanho escuro, mas ao invés de tingi-lo de um tom mais loiro como outras costumavam fazer, deixara-o de um negro absoluto que acentuava alguns detalhes de seu rosto, e fazia com que o tom caramelo de sua íris parecesse de um brilhante esverdeado. Seus olhos também não me evitavam- as pálpebras quase não piscavam e o rosto acomodara-se sobre o ombro de um modo que sugeria total conforto com o momento.

     Lenta, natural e francamente, as palavras escapavam-nos dos lábios. Não havia mais pressa, nem constrangimento. A banalidade de pijamas e sorvetes libertava-nos de desempenhar papéis. Nada parecia complicado ou subentendido, não havia objetivos ou interesses – conversávamos pelo puro prazer de ouvir um ao outro. Que falamos? De que rimos, de que nos deliciamos? Ah, bem… essas minúcias me escaparam, devem ter se evaporado pela noite que desfilava na janela. Falamos de bons filmes e bons livros, de maus amores e más escolhas, de estrelas e de tarot, de geopolítica a segredos de infância, de semelhanças e diferenças entre nós. Os olhos deixaram que as bocas se entendessem sozinhas, como crianças que brincavam longe dos adultos, enquanto dedicavam-se a mergulhar uns nos outros.  

    As horas se passaram, mansamente, a noite foi morrendo em madrugada.  Algumas vezes, ao que me lembro, ensaiamos um toque, um contato que não veio à luz. Fomos sentando cada vez mais próximos, talvez à distância exata para um beijo, à distância suficiente para que eu percebesse o pequeno rasgo na costura lateral dos seus pijamas, mas também à distância exata para que a noite fosse puramente mágica. O mundo lá fora dormia, ébrios vagavam, amantes se enredavam, amargurados rolavam em suas camas, e nós bebíamos das retinas um do outro por toda a madrugada.

    De certa forma, nós sabíamos – e era exatamente este o segredo- que seria melhor assim. Quando o dia espreguiçou-se nos primeiros raios do sol, ainda não estávamos saciados – eu sentia que isso seria impossível – mas partilhávamos uma doce conformidade com a fermata do momento. Com um suspiro de contrariedade, ela pediu licença e foi ao quarto – despedi-me, por ora, daqueles mágicos pijamas. Ouvi a água do chuveiro, que tamborilava em sua pele, com um repuxo de desejo. Em poucos minutos, já era a mulher séria e impessoal que estava à minha frente, cabelos presos e uniforme de trabalho impecável. Com um meio-sorriso, admitiu que estava “podre de sono”, sabendo que eu inevitavelmente iria pedir desculpas, e sabendo também que me faria feliz ao responder que “sem problemas, nunca uma noite mal dormida valeu tanto a pena”.

    O único toque físico, de toda aquela noite, foi o carinhoso mas formal beijo triplo nas bochechas, em despedida. E se, de alguma forma, um feitiço se insinuara entre nós, fora conseqüência – e não causa – daquela noite.

   Depois, enquanto a Terra seguiu girando indiferente à nossa sorte, enfim tivemos nossa história, com outros momentos maravilhosos, e um final que feriu a ambos, embora de modos diferentes. Nos perdemos, e a maior culpa foi minha, ao fingir extintos alguns vulcões adormecidos. E se de tudo o que vivemos guardei momentos mais intensos, outras noites em que os corpos muito mais se aproximaram, foi sobretudo aquela noite, aquela noite em que visitei uma garota de pijamas, que deixou a mais bela, a mais funda e a mais pungente de todas as nossas cicatrizes.

yellow rose

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3 respostas para A garota de pijamas

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Como é bom chegar em casa, domingo a noite, depois de um dia cheio, e ler um texto assim, tão bem escrito. Parabéns!
    Realmente “o menos é mais”, não é?! Ainda que nem sempre o “menos” seja aquilo que realmente queremos!!
    Adorei o texto!!!

  2. NÁDIA CRUZ disse:

    Linda história!!!
    A moça do pijama, devia ser muito interessante, especial…!
    Sempre achei que “menos é mais”.
    Abraços!
    Nádia

  3. Marina disse:

    São essas lembranças mágicas que tornam tão difícil a aceitação do fim de um relacionamento….

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