Uma mulher chamada Roxane

cyrano Era um homem de alma ampla, destemido e talentoso, ao mesmo tempo capaz de humilhar seus adversários em duelos a ponta de espada e escrever poesia com ironia e sensibilidade. Inteligente, forte, sensível, corajoso, simpático aos menos favorecidos, cavalheirescamente culto. Ah, mas era extremamente feio. Um nariz imenso, desproporcional, deformava-lhe o rosto.

Esta descrição refere-se ao personagem Cyrano de Bergerac, da peça teatral do mesmo nome escrita pelo autor francês Edmund Rostand, um dos grandes clássicos do teatro e obra-prima da literatura.

Cyrano, cadete do exército francês na gloriosa época dos mosqueteiros, é apaixonado por sua bela prima Roxane. E, tendo uma cruel percepção de sua própria aparência, não tem a mínima coragem de sequer ousar declarar-lhe o seu amor: sabe que Roxane tem uma queda por tipos mais apolíneos, embora também saiba apreciar demonstrações de refinamento intelectual.

cyrano bergerac roxane

Para rasgar-lhe o coração ainda mais, Cyrano é obrigado a ouvir da boca da própria Roxane seu interesse por um jovem e belo mosqueteiro chamado Christian. E, desgraça das desgraças, Cyrano também sabe que Christian já anda de olho na bela Roxane… demonstrando aquele amor singelo que deseja a felicidade do ser amado, ainda que sob as cinzas do próprio coração, Cyrano tenta servir de intermediário entre eles, mas esbarra em um problema básico: Roxane quer um deus grego sim, bonito de dar dó… mas que também seja capaz de sublimes declarações de amor – e Christian confessa ser um ignorante, completamente incompetente neste campo.

cyrano de bergerac christianNum misto de amor por Roxane e vaidade intelectual, Cyrano faz um trato com Christian: ele escreverá cartas e poemas que Christian assinará, com a finalidade de torná-la irrevogável e doidamente apaixonada pelo mosqueteiro. Naturalmente, essa é uma tarefa fácil para Cyrano: ele escreve com sinceridade, pois a ama profundamente. As palavras de Cyrano são tão autênticas e tão derramadas que o truque funciona; mesmo que em um momento de desespero Cyrano tenha de aproveitar a escuridão da noite para fingir ser Christian a declamar de viva voz um de seus mais poemas mais intensos.

A vitória de Cyrano é amarga: loucamente apaixonada pelo homem que acredita lhe escrever tão belas palavras, Roxane cai nos braços do burraldo Christian, e pede a um monge que celebre o casamento sem demora… mas não há tempo para muita coisa: como a França enfrenta guerras religiosas internas, Christian é mandado para o combate na linha de frente, por tramóia de outro ex-pretendente de Roxane. Esta, desesperada, pede que Cyrano o proteja em combate e que Christian lhe escreva para aliviar o sofrimento de seu coração. Novamente, é Cyrano quem escreve pungentes palavras de saudade em meio à trincheira, fingindo que a dor da perda de Roxane é a dor da saudade de Christian, que as assina.

E, enfim, Christian é ferido e morre… Roxane agora é viúva, e chora uma dor verdadeira pela perda tão precoce de quem pensa ser o grande amor de sua vida. Cyrano e sua alma nobre se calam mais uma vez. O que está feito, está feito. Resta-lhe sofrer com Roxane, embora esta ignore as verdadeiras emoções que lhe esmagam o espírito.

cyrano bergerac roxane finalE o tempo dá um salto até o final da peça. Roxane e Cyrano envelhecem. Roxane jamais se envolve com qualquer outro homem, retira-se a um convento e o amor de sua vida passa a ser a coleção de cartas e declarações de amor que pensa serem de Christian. Paciente e estóico, Cyrano torna-se seu grande amigo e confidente, mudo e devotado a fazer o máximo para evitar o sofrimento de Roxane. Mas, a caminho de mais uma visita à prima, Cyrano sofre um acidente banal que lhe fere mortalmente. Decidido a um último gesto, vai ao convento mesmo assim – finge estar bem e senta-se ao seu lado, ouvindo mais uma vez Roxane ler embevecida uma suposta carta de Christian.

Desta vez, porém, Cyrano lhe interrompe. Sem ler a carta, recita de cor os versos que ela contém – e o assombro de Roxane converte-se em uma doída compreensão. Mas já é tarde, Cyrano está morrendo em seus braços. Dilacerada de dor, ela chora “o amor que perdi duas vezes”.

Sobre sua parceira com Christian, Cyrano diz:

“Completam-se alma e corpo, amante e sensibilidade. Vai caminhando; a teu lado eu vou na sombra escura: serei teu gênio e tu será a minha formosura.”

E para Roxane, fingindo ser Christian:

“Se se pudessem mandar os beijos por escrito; é com os lábios que leríeis todas as cartas minhas… (um beijo…) é um modo de se aspirar o coração no rosto – e de provar-se, um pouco, à flor dos lábios, a alma”

E quem, afinal, Roxane amou? O homem em cujos braços se aninhou, cujos lábios efetivamente queimaram os seus, ou aquele que lhe cativou a alma para toda a vida? Ou ambos? Se Cyrano houvesse declarado seu amor, ficaria com ele ou com Christian? E nós, que não somos mosqueteiros nem belas damas do século XVI, temos sede de quê?

Uma frase esparsa que li em algum lugar da web dizia “atraia-me com sua aparência, mas conquiste-me com sua inteligência”. Hmmm… complicado, milady. Já estaria condenando o pobre Cyrano a não encontrar ninguém para conquistar. Nesta frase está implícito que o nosso contexto cultural valoriza muito a aparência, quem se interessa por alguém no sentido romântico quer ver seu físico antes de mais nada (redes sociais, por exemplo, são inimagináveis sem fotos). É bem mais difícil abstrair a aparência do que parece.

Ser atraído pelo belo é uma forma que a natureza tem de garantir a transmissão dos melhores genes possíveis – e, por outro lado, a atração pela engenhosidade e sensibilidade é uma forma de buscar segurança na criação da prole. Talvez não haja uma oposição tão dicotômica, maniqueísta, entre o corpo e a alma, a atração física e a intelectual. Com o transcorrer da vida, percebe-se que a admiração por uma bela alma pode transferir-se, de um modo sutil, para a admiração pelo corpo que a carrega. Aliás, esta é uma dádiva: desenvolver uma atração física por quem se ama de espírito é o mais próximo que se pode chegar da plenitude numa paixão. Por outro lado, aprender a amar uma alma muito rasa que habite alguém por quem se tem grande atração física é uma tarefa bem mais sofrida e menos confortante: normalmente exige um pouco de sacrifício, abrir mão de convicções culturais e até morais (é comum que as pessoas nestes casos se descrevam como “escravas” da atração física que sentem pelo outro).

O principezinho de Saint-Exupéry dizia que “o essencial não se vê bem com os olhos, mas sim com o coração”. Tornou-se um clichê, infelizmente… afinal, os clichês perdem o poder de causar algum efeito e tornam-se apenas palavrinhas para epígrafes, tatuagens ou profiles. O fato, meu pequeno príncipe, é que a miopia miocárdica congênita é uma pandemia no século XXI.

steve martin roxanne* o livro de Rostand é escrito em formato de peça teatral, é uma leitura um pouco complexa para quem não é acostumado. Quem tiver interesse em mais detalhes da história também pode assistir o filme “Cyrano de Bergerac” com Gerard Depardieu (1990), ou – eu recomendo- uma adaptação muito divertida feita pelo ator Steve Martin, que transporta Cyrano para os tempos modernos no filme “Roxanne” (neste filme, Cyrano é um bombeiro narigudo de uma pacata cidade do interior americano e Roxane é interpretada pela atriz Daryl Hannah).

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3 respostas para Uma mulher chamada Roxane

  1. Bibliólatras disse:

    Desde que você comentou sobre o livro lá no blog, fiquei super curiosa. Depois desta resenha, minha vontade de ler o livro aumentou ainda mais!

  2. Kelly disse:

    Desculpe, quem comentou acima foi a Kelly! ^^

  3. arleiro disse:

    Que bom, Kelly… no Brasil não se comenta muito sobre Cyrano. Mas como é uma peça teatral, a leitura não é muito fluente: te recomendo dar uma olhada em algum dos filmes para ajudar a pegar o espírito!
    Abraço!

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