A menina mais bonita da escola

Monet pintura Giverny

Eu sentava na carteira exatamente atrás da menina mais bonita da escola (oficialmente reconhecida, faixa de “miss” ao peito e tudo). Foi uma época dolorosa – só não era chamado de “nerd” apenas porque tal palavra não estava em nosso vocabulário, mas “CDF” era um xingamento que eu ouvia constantemente. Isso naturalmente contribuía para que eu me sentisse alienígena ao mundo dela.

Contudo, apesar de sua óbvia notoriedade, ela era uma garota simples e simpática. Na bela paisagem de seu lago interior havia águas profundas de tristeza, como vim a sabê-lo em fragmentos de conversas distraídas. Era gentil e doce, talvez um pouco insegura, precocemente preocupada com um futuro que ainda nem se dera por conta de nossa presença. Tinha belos olhos da cor do céu de outono – e, em momentos de surpresa ou de timidez, duas nuvens róseo-alaranjadas nas bochechas.

Obviamente, fui apaixonado por ela. Paixão platônica, ingênua e pré-adolescente, mas de uma natureza incrivelmente indelével. Nunca mais a vi, por duas décadas, até trombar com sua foto nas páginas de uma rede social. A primeira sensação foi de uma aguda regressão, nostalgia de tempos e coisas. Ao reatar o contato perdido depois de muitos anos, percebi que jamais havia considerado a hipótese de que aquela garota não estivesse congelada naquela carteira, que ela atravessasse as décadas e houvesse enfrentado as lutas e barras do dia-a-dia como eu… enfim, que a mulher que falava em emprego, pós-graduação e filhos fosse a mesma estrela meiga e juvenil que havia iluminado a nossa oitava série. Aquela, de algum modo, havia sido capturada para toda a minha eternidade, perfeita e imaculada – uma paixão eterna e imutável.

Jamais a tive, no sentido mais pragmático – e no entanto, ao encerrar a conversa virtual de mútua atualização, entendi com um sorriso que eu sempre a tive, e sempre a terei – aquela menina de voz miúda dorme comigo todas as noites. Tornou-se um pilar de minha alma, a pedra fundamental dos gostos e desgostos. Abriu-me o peito para a incrível aventura que é aprender a amar, ensinou-me a diferença entre querer bem, gostar ou apaixonar-se. Em todas, todas as mulheres que me cativaram depois dela, o pulsar do coração foi inconscientemente comparado com aquele que me tirava o fôlego nos dias em que demorava a entrar em sala. Ela nunca soube, é natural (e necessário).  E… não sou o primeiro nem o último a derramar em palavras a relevância emocional destes amores primogênitos:

Álvares de Azevedo:

“E quando eu durmo… e o coração ainda
Procura na ilusão tua lembrança,
Anjo da vida passa nos meus sonhos
E meus lábios orvalha d’esperança”

 Vinícius de Moraes:

“Porque nas classes do colégio
Onde a meu lado te sentavas
Tornou-se diário o sacrilégio
Durante as preces: te buscava.
E o olho cândido na mestra
Que iniciava a aula depois
Acompanhavas a palestra
Cuidando apenas de nós dois”

Alfred Tennyson: “E profunda e selvagemente como o primeiro amor, / nós todos lamentamos: ó morte em vida, os dias que não são mais!”

Benjamin Disraeli: “a magia do primeiro amor é nossa ignorância do fato de que ele jamais acabará”.

Mesmo tantos anos depois, sinto que preciso agradecê-la… agradecer por fazer de mim um desajeitado e emotivo insatisfeito – por causar-me lágrimas e noites de angústia a buscar-lhe em mulheres humanas demais para isso. Ocorre que isso me engrandece, torna-me capaz de rejeitar a acomodação e, a cada queda, descobrir que posso levantar maior do que era. Devo pedir à mulher em que ela se transformou: perdoe esse seqüestro, esse furto inconsentido da sua juventude para meu uso pessoal, sem jamais dar nada em troca. Não foi intencional; aliás foi tão inconseqüente quanto inevitável. Fico pensando quantos outros garotos crivados de espinhas vieram a furtá-la como eu…

quadro monetMas peço a deferência especial que este espaço me garante (o blog é meu, afinal das contas!!!), e ponho-me de joelhos para a menina que roubei para toda a vida: percebo que Disraeli estava certo, este amor nunca acabará, a menina mais bonita da escola será sempre uma referência de coisas invulneravelmente puras, um cantinho limpo e ensolarado da minha alma. Alguns versos horrorosos de adolescente ainda restaram após incontáveis mudanças de endereço, e deles eu resgato uma só frase:

“era meu anjo sem asas, ensinando a perdoar o tempo”

E para a amiga que ficou dessa menina, tudo de melhor na vida! Que haja guardada para teus olhos uma serena e redentora felicidade, com ou apesar das coisas miúdas que atrapalham nossa concentração no que é importante: empregos podem ser correntes que nos prendem ao solo – mas também impedem que despenquemos no abismo quando a terra se abre sob nossos pés. Que haja em teu caminho, minha cara, tanta luz quanto (sem querer) me destes; que haja paz, e um verão eterno na paisagem de teu lago de águas mansas – sem o calor de inferno daqueles verões de Santa Rosa, bem entendido…

monet pintura lago

 

 

 

P.S.: é impossível falar em lagos sem roubar algo de Claude Monet…

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Uma resposta para A menina mais bonita da escola

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Ahh “o menino mais bonito da escola”! Acho que todo mundo teve esse tipo de paixão (ou pelo menos algo parecido). Não vou me prolongar neste comentário, pois “estragaria” a perfeição com que foi escrito. Esse é um dos posts que mais me emocionou. Mais uma vez (e sei que já tô ficando chata) parabéns! 😉

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