As duas vidas do Doutor Jivago

Um bom filme ou um bom livro? Cinema e literatura são artes em constante pé-de-guerra, num namoro perturbado pela incompatibilidade de gênios. Os mais rabugentos dizem que o casamento é impossível, porque trabalham em círculos distintos de sensibilidade. Mas eles tem um filho em comum, normalmente esculachado pelos fãs de ambos, o híbrido “roteiro”. 

Amantes da literatura, que bebem palavras e respiram orações subordinadas, chamam o roteiro de prostituição literária. Amantes do cinema, que entram em êxtase com planos profundos e sorvem até o último gole de uma boa continuidade, chamam o roteiro de algema da criatividade.

Talvez a maior prova de que cinema e literatura não foram feitos um para o outro é a impositiva ausência de uma obra que seja um clássico da literatura e do cinema ao mesmo tempo. Livros geniais costumam dar filmes medíocres, e filmes estupendos dão à luz livros ainda abaixo disso. Não há uma versão cinematográfica inquestionável de um Dom Quixote ou de Hamlet, e muito menos uma obra-prima literária de Bergman, Kubrick ou Almodóvar.

Os Best-Sellers, que primam por narrativas amplamente visuais, costumam render bons filmes (O Poderoso Chefão, O Silêncio dos Inocentes, Rebecca). Mas poucas iniciativas de filmar vencedores de prêmios Nobel tiveram sucesso (Quo Vadis ou Por Quem os Sinos Dobram seriam razoáveis exceções). Invariavelmente, a culpa é do maldito roteiro, que é um servo burro, incapaz de servir a dois senhores ao mesmo tempo.

doctor zhivago

Portanto, é de se imaginar o dilema de Robert Bolt, encarregado de produzir o roteiro para a superprodução Doutor Jivago (transliteração portuguesa de Zhivago), que David Lean e Carlo Ponti tencionavam filmar a partir do livro de mesmo nome, do prêmio Nobel de Literatura Boris Pasternak – que entre outras coisas narra a atribulada vida do médico Yuri Jivago na Rússia da época da revolução comunista. Ocorre que o livro é magistral em si próprio, e carrega em sua narrativa toda a peculiaridade do estilo russo de literatura – introvertido e auto-suficiente, muito pouco linear. Nada apropriado para as telas do cinema.

Havia três soluções possíveis: a primeira era fazer um filme sobre o texto de Pasternak (totalmente fora de questão); a segunda era fazer um filme que trouxesse a história de Pasternak para o estilo “épico” de Hollywood, ou seja, um “Ben-Hur“ soviético; e a terceira saída, que se revelou a mais adequada: fazer um filme que se bastasse em si mesmo, original sem recorrer nem ao texto (duro como aço) nem apelar demais aos clichês cinematográficos (pastosos como purê). Assim, o filme “Doutor Jivago” é uma entidade distinta do livro “Doutor Jivago”, é difícil traçar paralelos entre ambos. Cada um tem seus próprios méritos e deméritos, e estes são linhas que jamais se cruzam.

lara and zhivago

Pessoalmente, vi o filme e li o livro. Deve-se ler o livro com a alma aberta para o estilo russo, o que pode se conseguir treinando um pouco com os mais tradicionais Tolstoi e Dostoievsky, e prestando atenção nos detalhes sutis que faziam referência à vida pessoal na Rússia Soviética, o extraordinário laboratório social que o regime instituiu naquelas décadas tumultuosas.

Doutro JivagoO filme, naturalmente, é mais palatável (por isso, era um campeão das noites da Globo nos anos 80), mas para vê-lo como ele merece é preciso abstrair a forte conotação anti-bolchevista e os elementos de dramalhão, e enxergar a forma coesa como o diretor conduz a linha temporal da história, e, o mais importante, o uso fantástico da fotografia. As cores (ou sua ausência) são um personagem da história, tão ou mais importante que Jivago e sua amante Lara. É possível esquecer por completo os diálogos do filme, mas a cenografia é tão poderosa que marca as retinas para sempre. Ao contrário dos épicos típicos, não é apenas na reconstrução arquitetônica ou de figurino que este baseia sua grandiosidade, mas no enquadramento sensível da natureza, que acentua os sentimentos latentes da história: a solidão, a inquietude, o amor, e talvez o maior de todos: a incerteza quanto ao papel de um único ser humano e suas emoções frente ao poderoso pano de fundo da história. Na obra de Pasternak, este tema é elaborado pelo modo como a linha da vida de Jivago às vezes fica diluída nas linhas dos demais personagens e da recém criada União Soviética – no filme, isso é apresentado em uma forma visual que chega a ser opressiva.

Julie Christie Lara Doutor JivagoO casal de protagonistas principais foi um achado estético que lotou filas de cinemas nos anos 60: Omar Sharif e Julie Christie, ambos no auge de sua beleza – e se o imponente bigode de Sharif já não é uma unanimidade com o público feminino, os lábios poderosos e o olhar felino de Christie ainda são um marco de beleza feminina (não é verdade, Angelina Jolie?).

Doutor Jivago é um  filme belíssimo, e Doutor Jivago é um livro desafiador. Como cinema, o filme pode não ser um dos melhores de todos os tempos, e o valor literário do romance de Pasternak vem sendo questionado desde que a queda do comunismo dissipou seu valor sentimental. Mas a comparação entre as obras é um mal explorado exemplo de como mídias tão distintas podem aprender uma com a outra.

Afinal, descobri o livro de Pasternak a partir do filme de Lean, e ao invés de apenas acrescentar cereja a um bolo, ganhei dois bolos distintos. Ah, poderia dizer que ganhei um terceiro: a trilha sonora de Maurice Jarre, muito inspirada e da qual o tema principal (“Tema de Lara”) foi uma das primeiras peças musicais que consegui tocar.

zhivago

* Doutor Jivago é, em valores atualizados, uma das maiores bilheterias de todos os tempos, e o roteirista Robert Bolt ganhou o Oscar pelo roteiro adaptado.

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