Já errou demais na vida? Compre um tapete persa…

mandei malJá amou demais alguém que não merecia sequer o teu espirro? Fez, aconteceu, caiu de quatro, perdeu melhores companhias, rogou pragas, prometeu desistir e não cumpriu, fez papel de otário(a), chorou um balde, socou o travesseiro? Bem vindo(a) a um clube de muitos sócios… (ainda nos cruzamos por lá), inclusive um certo Philip. 

Philip é personagem de um livro chamado “Servidão Humana” do autor inglês Somerset Maugham, que muitos nunca lerão – Maugham não é nenhum Dan Brown, ler “Servidão Humana” requer muito mais tempo e cuidado do que o leitor padrão de hoje está disposto a oferecer (são cerca de quinhentas páginas). Mas vou resumir, não mudem de canal, que há algo importante para ser dito.

servidão humanaPhilip é manco, tímido, não sabe bem o que quer da vida (na maior parte do tempo é estudante de Medicina), cheio de complexos e temores. Apaixona-se perdidamente por uma garçonete chamada Mildred, que debocha do seu afeto e faz questão de humilhá-lo, inclusive por seu defeito físico, embora quase sempre faça questão de tê-lo por perto. Philip é seu escravo sentimental, toma na cabeça de modo mais freqüente do que escova os dentes, está sempre tomando decisões erradas… a certa altura do campeonato, pergunta-se para que diabos serve uma vida tão desgraçada. Resolve questionar um filósofo boêmio chamado Cronshaw, que passa a maior parte do tempo contemplando Paris pelo fundo de um copo. Ele responde que o sentido da vida está num tapete persa.

Podia estar num mico-leão dourado ou num cachimbo, daria no mesmo: Philip não consegue entender. A resposta só virá páginas e páginas depois, mas vou poupar o tempo dos menos entusiasmados no parágrafo a seguir.

persian carpet

A vida de cada um é como as linhas do desenho de um tapete persa: não precisam ter significado. Podem ser quase retas, de poucas e discretas curvas – ou retorcidas, enoveladas, indo e vindo em arabescos e floreios. De qualquer modo, vão compor o tapete, vão ter um início e um fim – embora as mais belas, as que dão ao tapete seu brilho e imponência, sejam as mais sinuosas.

Não existe a obrigatoriedade de acertar. Tanto o acerto quanto o erro vão fazer a linha se desviar para um caminho ou para outro, e só acompanhando até o final do tapete se poderá saber se o desenho formado foi ou não mais bonito.

falou comigo

Tudo o que passamos, cada erro e cada acerto, cada mico e cada “mandou bem”, tudo faz com que nossa linha seja única. Os erros e mancadas de hoje, que parecem ter atrasado a vida ou custado muito caro, podem ser a curva exata onde o desenho começa a se tornar maravilhoso.

(pessoalmente, uma das abordagens românticas mais estúpidas que fiz, que me deixou por dias com vontade de deletar completamente minha existência e com a impressão de que o silêncio vale mais que ouro, foi exatamente o que levou a uma surpresa maravilhosa algumas semanas após…)

Uma linha reta é uma vida morna, sem grandes sustos e sem grandes arrebatamentos. Elas servem apenas como coadjuvantes do tapete. Sem querer estragar o prazer de quem tiver coragem de ler “Servidão Humana” posso adiantar que Philip acaba percebendo que as desgraças de sua vida são exatamente o que a torna extraordinária (afinal, rendem um livro…), que sua busca angustiante por achar um sentido na vida é uma grande bobagem, e isso, de um modo torto, acaba levando-o a um final redentor.

gisele e maninhoErrar é preciso, errar muito, errar de novo, errar chorando, errar sorrindo. “devia ter arriscado mais… e até errado mais”… completando, “tudo certo se eu errar” é o que cantam Gisele e Maninho (que fazem um belo fundo musical para todos os erros que se cometem na noite de Santa Maria) numa canção composta por Érlon Péricles):

Tudo certo se Eu errar
Se Eu chorar, machucar
Se Eu errar, tudo bem

Não vou mais me lamentar
Já não quero mais chorar
Deixa assim, já cansei

Bem pior que não chegar
É a gente se cobrar: Nem tentei!
Tudo certo se Eu errar
Se Eu chorar, machucar
Deixa assim tudo bem

Peito aberto, cara ao vento
Eu vou pra rua
No meu sonho, minha alma é quem flutua
Já não fico mais nervoso
Já não tô mais nem aí
Já cansei de me iludir

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2 respostas para Já errou demais na vida? Compre um tapete persa…

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Hum, parece até que esse post foi escrito pra mim! rsrs! Como eu errei nessa vida (no quesito amor, paixão – insanidade, doença…. rsrsrs). Hj, no alto dos meus 28 anos, posso dizer que um determinado erro do passado foi a melhor que poderia ter acontecido em minha vida! Errar é humano, faz a gente crescer, amadurecer, valorizar pessoas e coisas antes deixadas de lado. Eu gosto de errar (não sempre é claro), mas, gosto porque aprender é sempre um prazer enorme! É revigorante saber que, sim, eu errei, mas aprendi e me superei!
    Será que eu “viajei” demais agora?!?! rsrsrs

  2. DAIANE disse:

    adorei o post maravilhoso, mt inspirado. mt curiosa de ler o livro deve ser maravilhoso tb!

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