“Diário de uma Paixão” para Florbela Espanca

 
 the notebook movieAfinal, o que leva as criaturas a buscar – contra toda os alertas e tropeços – a companhia eterna de outro alguém? Porque ainda parece tão fascinante a perspectiva de ver o outro envelhecendo em carne e brilho; de mergulhar cada vez mais nos seus defeitos imutáveis, nos seus truques desde há muito desvendados, nas manias e nos vícios que crescem feito ervas sobre encantos pouco a pouco abandonados? 

 

Apaixonar-se é tão intenso, tão arrebatador e tão fascinante, que é perfeitamente compreensível querer estar ao lado de outro ser humano o máximo de tempo possível, e fazer planos e mais planos para que essa magia sempre esteja à disposição. Mas e depois? Isso implica criar vínculos sociais e compromissos de parte a parte – uma garantia que é impossível de honrar, porque o prato mais saboroso também enjoa, se for servido todos os dias. Citando Shakespeare (em Hamlet): aquilo que nos prometemos sob o fogo da paixão, não mais cumprimos quando a paixão acaba.

Levando em conta a grande quantidade de marinheiros de segunda ou terceira viagem que existe hoje em dia, é de perguntar-se porque ainda se insiste em buscar a fórmula do “felizes para sempre”. Imposição cultural? Pode ser que fosse, mas hoje em dia penso que não. Necessidade biológica? É, mas a quantidade de possibilidades para relacionamentos informais são tão amplas… porque não satisfazem?

O filme baseado no livro “The Notebook”, de Nicholas Sparks (“Diário de uma Paixão” no Brasil) costuma provocar lágrimas e suspiros, até das mais cínicas e pragmáticas, induzindo manifestações de inveja e cobiça pelo sentimento de ternura incondicional demonstrado por um casal ao longo da maior parte de suas vidas, da alvorada ao crepúsculo. Seria apenas mais uma entre a miríade de outras ficções românticas que versam sobre o mesmo tema, mas este “Diário” tem um diferencial sutil: revela um pouco da resposta aos parágrafos anteriores, a cada vez que Noah narra à sua ouvinte as crônicas de um romance já vivido: queremos testemunhas.

the notebook older scene

Como já palpitei no post imediatamente anterior, nossa vida não precisa ter um rumo quadradinho para ser bela; é extraordinária exatamente por todas as suas pequenas e grandes mudanças de rumo, todos os badulaques do dia a dia, os gostos e os desgostos que nos constroem corpo e alma. Só que – eis o tchan da coisa – é preciso testemunhas, é preciso um par de olhos e de ouvidos que registre cada curva (e incidentalmente peça um registro também), alguém que nos conheça, pois queremos ser conhecidos. Amigos cumprem bem este papel, mas não chegam ao grau supremo da intimidade (aquele mesmo que a princípio parece matar o relacionamento, mas olha só…), aquele no qual finalmente nos sentimos confortáveis, onde não há mais medo de ser incompreendido, e onde o que se deu é igual ao que se recebeu. É só ao chegar a tal ponto, com tal pessoa, que se pode pedir o que a poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) pedia em seus sonetos:

poetisa florbela espanca“Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida”

Ou devolver esse favor:

“Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas; “

Em outro soneto, Florbela diz:

“Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!…”

Quando uma paixão se compartilha, termine ela como acabar, seus protagonistas são cúmplices de tudo o que passou, únicas testemunhas das catarses, das vísceras postas para fora, das almas desnudadas. Essa cumplicidade é o que clama pela presença do outro, mesmo com as brasas mortas e a carne quieta, quando o balanço de uma vida se impõe. Na ausência do cúmplice, um copo e um amigo tomarão o seu lugar – mas será uma farsa, crua e rude nostalgia que mais fere que afaga.

poesia florbela espancaA pobre Florbela, vítima das neuroses e das perdas, suicidou-se em 8 de dezembro 1930 (80 anos semana que vem). Apesar de escrever em formato convencional (o soneto), foi uma das pioneiras na exaltação de uma alma feminina independente e exuberante. Muito pouco de sua obra foi reconhecida em vida, e embora tenha desfrutado grande prestígio após a morte, foi graças a Antônio Guimarães, segundo dos seus (foram três) ex-maridos, que a maior parte da produção de Florbela veio à tona: Guimarães guardou consigo grande quantidade de inéditos de Florbela, mais tarde presenteando o mundo com sua obra. Em vida, incapaz de manter seus casamentos, Florbela dizia:

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê..

De uma certa forma, Guimarães serviu-lhe de testemunha, um Noah tardio em sua vida. Como no romance de Sparks, o relacionamento de ambos foi tumultuado e pontuado de “outros”. Mas o empenho de Antônio em manter viva a obra de Florbela, mesmo depois de um divórcio conturbado e outro relacionamento ecoa a ternura típica dos amantes-testemunhas. Talvez, se não desistisse de sua vida naquele dezembro, Florbela e Antônio ainda pudessem… bem, como sabê-lo? Afinal, Florbela também escreveu:

“há cem anos que eu era nova e linda!… e a minha boca morta grita ainda: porque chegaste tarde, ó meu Amor?!…”

lake scene the notebook(Obrigado por toda sua poesia maravilhosa, Florbela, mas rezo para que nunca seja obrigado a citar este último verso…)

Anúncios
Esse post foi publicado em Cinema, Literatura e marcado , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para “Diário de uma Paixão” para Florbela Espanca

  1. NADIA CRUZ disse:

    Lindo texto!
    Acho a coisa mais triste do mundo , quando um amor acaba…
    Também gosto muito de Florbela, tenho um sensação esquisita com ela…algo como se tivéssemos vividos próximas…
    Realmente , uma coisa estranha…rsrsr
    Um abraço
    Nádia

  2. Marina disse:

    Descobri seu blog há poucos dias e estou amando! Por favor, não pare! Rs!

  3. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Adorei o texto! É realmente lindo! Arrepia a alma! Parabéns novamente! Bjos

    • arleiro disse:

      Fernanda;
      obrigado por todo o carinho que você deixa em cada visita, e obrigado por abrir a alma para ser arrepiada! Acho que temos de ser (talvez nem sempre, mas sempre que possível) o eco de um verso de Maiakovsky: “(…) comigo a anatomia ficou louca. Eu sou todo coração.”
      Um abração, volte muito e sempre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s