Escapando entre meus dedos…

Tenho duas filhas. Embora passe com elas mais tempo do que a média dos pais separados, cerca de três dias por semana, ressinto-me da perda de alguns momentos mais triviais do cotidiano.

“escapando por entre meus dedos, a cada dia… eu tento capturar cada minuto, mas ela me escapa entre os dedos, mais a cada dia…”
 
Ter filhos implica em amar e perder várias criaturinhas diferentes. Nos apaixonamos desde o primeiro momento, quando são frágeis e inocentes, bolinhas de carne ternamente aninhadas entre os nossos braços. Mas depois este bebê que aprendemos a amar desaparece; de certa forma é como se morresse o nosso primeiro amor – a dor desta perda é sutil porque é gradual, e ela é compensada pela paixão por uma criança desajeitada que faz mil novas descobertas encantadoras (ou assustadoras) por dia: sem perceber direito, passamos a amar uma outra pessoinha.
 
E assim por diante… um belo dia a criancinha trôpega não está mais lá: um pedaço de gente que já fala, reclama, faz beiço e te beija sem pedir nada em troca tomou o seu lugar. Nova perda, novo amor… tentamos nos adaptar, mas antes de aprender completamente como lidar com ela, já é uma pré-adolescente curiosa, semi-independente e de corpo mutante que está dormindo em sua cama.
 
Quando olho para elas, sinto o luto pelos bebês que eu perdi… na última fralda guardada num canto, que jamais será usada, está o epitáfio daquele mágico cheirinho da penugem de suas cabecinhas. Abraço-as com força, e esse abraço me conforta… mas não obstante a grandeza infinita e irrestrita do amor que exala deste abraço, são minhas crianças – não são mais minhas bebês. Aquelas foram-se para sempre. E ao constatar essa certeza, percebo que o processo se repetirá. Não importa quanto eu as aperte, quanto as beije e proteja no meu peito, elas irão embora. As roupinhas estão deixando de servir, terão de ser doadas… quanto mais as camisetas parecem encolher, mais encolhe meu coração.

 

pai_filha

Mas isso não significa que eu queira mantê-las eternamente assim, como versões femininas de “Peter Pan”. Ao mesmo tempo que meu coração se rasga, anseio por todas as emoções que virão, toda a fase complexa da adolescência, suas conquistas, vê-las subir ao palco da vida… é que as emoções se atropelam, agredindo-se em uma confusão sensorial pouco administrável.

“escapando por entre meus dedos, a cada dia… eu tento capturar cada minuto, mas ela me escapa entre os dedos, mais a cada dia…”
   
 agnetha faltskogAgnetha Faltskog, uma das vozes do grupo sueco ABBA, canta com os olhos tristes “slipping through my fingers…”. Em se tratando de ABBA na sua fase final (https://polifonias.wordpress.com/2010/11/07/36/), a autenticidade é escancarada e inquestionável. Ela está cantando para sua própria filha, Linda – a letra da canção é da autoria de outro membro do ABBA, Bjorn Ulvaeus, que é o pai de Linda e ex-marido de Agnetha.

Minha filha mais velha ouviu a melodia da música, que por si só tem um tom de nostalgia. Curiosa, pediu que eu lhe traduzisse. Eu o fiz, verso por verso, enquanto estávamos abraçados sobre a cama. E ao final, ambos chorávamos lenta e conformadamente (talvez, em seu estúdio de gravação em Estocolmo, num dia frio de 1981, Agnetha tenha deixado escapar uma lágrima também).

Nada posso fazer para impedir o que sei que vai acontecer… sequer me atreveria a compor uma canção como esta (é um privilégio de Bjorn e seu parceiro Benny Anderson, que para mim são mais do que apenas compositores de música pop). E nem todo o sucesso, dinheiro e prestígio de um bem sucedido grupo pop como o ABBA não pôde impedir que a criança Linda Ulvaeus morresse, deixando uma bela adulta em seu lugar.

linda and agnetha ulvaeus

“escapando por entre meus dedos, a cada dia… eu tento capturar cada minuto, mas ela me escapa entre os dedos, mais a cada dia…”

Eu tenho as fotos delas, alguns vídeos, alguns dentinhos de leite, roupinhas ainda com cheiro de sachê. Elas terão suas próprias aventuras para viver, seus próprios “recuerdos” para colecionar. Elas não me pertencem, na verdade nunca me pertenceram – e deve ser assim. Talvez toda a dor destes lutos sucessivos seja amplamente superada pelas experiências que vamos viver juntos. Mas, mesmo como um homem adulto que tem aprendido a lidar com perdas, preciso fazer um esforço para conter as lágrimas ao ouvir Agnetha cantar para Linda:

Mochila da escola nas mãos, ela sai de casa / dando um tchau com um sorriso meio ausente / eu a vejo partir com um familiar sabor de tristeza / e tenho de sentar por um momento / sinto como se a estivesse perdendo para sempre, sem nunca realmente entrar no seu mundo / fico feliz sempre que posso compartilhar seu riso, menininha engraçada…

Escapando entre meus dedos o tempo inteiro, eu tendo capturar cada momento / a emoção que há em cada um deles, escapando entre meus dedos o tempo inteiro / a cada vez que penso conhecê-la, ela já cresceu – escapando entre meus dedos o tempo inteiro…

O sono em seus olhos, eu e ela tomando o café da manhã / ainda mal acordada, eu deixo momentos preciosos irem embora / e depois que ela se vai fica uma sensação de melancolia e um sentimento de culpa que não consigo evitar

O que aconteceu com todas as maravilhosas aventuras, os lugares que planejei para visitarmos juntas? / bom… algumas nós fizemos, outras não… e não entendo bem o porquê

Às vezes eu desejo poder congelar sua imagem e preservá-la dos truques do tempo / Escapando entre meus dedos, o tempo inteiro…


* Linda Ulvaeus hoje é cantora e atriz, com sua própria carreira solo estabelecida na Europa.

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4 respostas para Escapando entre meus dedos…

  1. Gi Cano disse:

    Que lindo post!!!
    Não tenho filhos ainda mas achei muito interessante a sua forma de pensar e, analisando do ponto de vista de filha realmente as diversas fases da vida nos fazem de um dia pro outro virar um ser “estranho”, especialmente na adolescência.
    Idolatrados os meus pais, pela paciência e amor com que passaram e ainda passam comigo pelas minhas fases 🙂

    • Fernanda Moraes Catelli disse:

      Ahh até chorei aqui! Não tenho filhos ainda, um dia terei, com certeza, portanto, não consigo entender o seu sentimento de Pai. Maasss, eu tenho um Pai lá em casa que é tudo pra mim! É o meu orgulho, a minha vida, o ar que eu respiro! E eu sei q sou td isso e mais um pouco pra ele!
      Meu Pai é assim, como vc, compartilha comigo, até hj, todas as minhas fases! Sempre com o sorriso no rosto, uma palavra de incentivo, uma reprimenda qdo necessária, enfim, ele é Pai né?!?!
      Mais uma vez, parabéns pelo post! 🙂

  2. Ronaldo disse:

    Arlei – quando li o início do post, lembrei logo da música que a seguir tu descreveste (é, eu também sou fã do ABBA…). Mesmo antes de ser pai já me afligia com essa inexorável passagem do tempo, mas depois que os filhos nascem esse sentimento fica ainda mais doído. Parabéns por tua sensibilidade, e longa vida às nossas memórias.
    Ronaldo

  3. NÁDIA CRUZ disse:

    Tenho um filho de 19 anos.
    Sinto falta da criança que perdi, porém ganhei um jovem amigo, que me deixa acordada nas madrugadas, esperando ele chegar…rsrsr
    Parabéns pela sensibilidade!
    Ótimo texto!
    Abraços!
    Nádia

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