Encontre-me em Montauk – o brilho eterno das pequenas coisas

“Se eu não lembro, eu não fiz”… costumam dizer os gaiatos e gaiatas após excessos alcoólicos ocasionais.
 
  Esse lema é levado às últimas conseqüências pela personagem Clementine, do filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, de Charlie Kaufman (roteiro) e Michel Gondry (direção). Cansada das mágoas constantes de um relacionamento problemático, Clementine (Kate Winselt) procura um novo e “revolucionário” tratamento para o coração ferido: a eliminação eletrônica de todas as memórias referentes ao parceiro (Jim Carrey). Livre da angústia das más recordações e sem a eterna tentação das boas, pretende recomeçar a vida do ponto em que a deixou antes de conhecê-lo.

Parece uma solução fantástica, mas talvez não seja tão simples assim… pela originalidade e por uma interpretação surpreendente de Kate e de Jim Carrey (que descobrimos ser um ator legítimo), este é um grande filme – que já nasceu cult.

O que se revela no decorrer do filme, contudo, é que a mente (ou o coração, vá lá…) nos prega peças muito sutis. Esquecer é um mecanismo biológico necessário, que nos protege tanto da sobrecarga mental quanto do sofrimento psíquico, mas lembranças tidas como perdidas podem saltar de repente de suas cavernas escuras, brilhando reluzentes à luz do dia. Os laços com aquilo que amamos não se fazem através das grandiosidades, mas dos mais ternos e sutis detalhes.

O que os personagens de “Brilho Eterno…” (o título é uma referência a um poema de Pope, sobre Abelardo e Heloísa) buscam, deletando recordações, é fugir ao padrão básico que marca o fim de um relacionamento: de imediato, lembranças ruins tornam-se mágoas e lembranças boas tornam-se saudades. Com o passar do tempo,  as mágoas costumam diminuir de intensidade e a saudade converte-se em uma agradável nostalgia. Eventualmente, porém,  transformamos mágoas em rancor e saudade em angústia – uma armadilha que leva à amargura.

Quando descrevemos nossos envolvimentos românticos, temos a tendência de estabelecer padrões cronológicos que seguem a trilha natural dos eventos. O primeiro encontro, as viagens, as principais brigas e reconciliações… mas quando não estamos conscientemente pensando nos grandes momentos de nossas vidas, descobrimos que coisas singelas tem um potencial emocional muito maior. A capa de um DVD na locadora que lembra um filme assistido a dois, o cheiro do pão caseiro que instantaneamente remete a um dia de chuva, uma camisa manchada de vinho esquecida no fundo do guarda-roupa, a melodia de uma música que nem parecia tão importante na época… não é à toa que, como parte da técnica de apagar memória, os personagens de “Brilho Eterno” sejam obrigados a escarafunchar com cuidado todos os pertences para jogar fora qualquer coisa que possa induzir uma memória venenosa.

Mas a grande descoberta é que as pequenas coisas vivem por si sós, independentes dos seres que as criaram. Nossas fases e relacionamentos podem passar (e às vezes devemos permitir que passem), “perdemos” coisas e pessoas no caminho, mas estas pérolas passam a ser nosso patrimônio eterno – estão no fundo de nossas mentes, às vezes muito bem escondidas, e jamais as perderemos.

humphrey bogart em casablancaNunca “possuiremos” por completo um ser amado, mas serão eternamente nossos estes bibelôs sentimentais. Quanto mais vivemos (no sentido mais amplo da palavra), mais ricos deles nos tornamos. E não precisamos nos esforçar para isso, pois o arquivo sentimental é construído involuntariamente. Como disse o escritor francês Saint-Exupèry, através de seu Pequeno Príncipe: “porque uma rosa te é importante, todas as rosas te parecerão rir”. Ou melhor ainda, o personagem Rick, vivido por Humphrey Bogart no filme Casablanca, prestes a perder para sempre a mulher que ama: “Sempre teremos Paris”.

No filme de Gondry e Kaufman, um dos tesouros sentimentais que os personagens compartilham é a paisagem banal da praia de Montauk. “Encontre-me em Montauk”, além de uma frase chave para a trama, é uma composição verbal para expressar o patrimônio sentimental que o lugar representa – e tem um sentido imensamente maior que o aparente: “Encontrarei você em Montauk” significa que sempre se encontrará o outro em Montauk, mesmo que o outro não esteja lá, ou que não seja mais nada daquilo que foi. Em suma, não é necessário depender da inconstância humana… estes souvenirs emocionais bastam-se em si mesmos, além de ajudarem a definir o que somos e por onde caminharemos no futuro.

Encontre-me em MontaukTalvez Luís de Camões, que escreveu os versos abaixo, fosse um candidato ao tratamento de “Brilho Eterno…”:

Lembranças, que lembrais meu bem passado  / Para que sinta mais o mal presente,  / Deixai-me, se quereis, viver contente,  /  Não me deixeis morrer em tal estado  / Mas se também de tudo está ordenado  /   Viver, como se vê, tão descontente,  /   Venha, se vier, o bem por acidente,  /  E dê a morte fim a meu cuidado.  /  Que muito melhor é perder a vida,  /  Perdendo-se as lembranças da memória,  /  Pois fazem tanto dano ao pensamento.  /  Assim que nada perde quem perdida /  A esperança traz de sua glória,  / Se esta vida há-de ser sempre em tormento.

(homenageando também o gato Zidane, do Cais do Oriente…) http://caisdooriente.blogspot.comencontre-me em montauk

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7 respostas para Encontre-me em Montauk – o brilho eterno das pequenas coisas

  1. Kelly disse:

    Oi Arlei!
    “Brilho eterno…” é um dos meus filmes preferidos. A trama, os diálogos… É tudo muito bom! Sem dúvidas, faz refletir bastante. Um dos poucos filmes em que eu consigo gostar mesmo da atuação do Jim Carrey.
    Abraços!

  2. Gi Cano disse:

    Olá Arlei,
    vim visitar seu blog após ler seu comentário, fiquei curiosa em saber em que blog vc leu meu post, (vc não gostou desse blog ou do meu comentário? rs).
    Obrigada pelo coment, eu ponderei muito antes de montar um blog pq não me achava apta pra ficar comentando os livros dos outros, rsrs, mas como a necessidade de falar o que penso e trocar idéias era maior acabei cedendo, deixando claro que as opiniões são pessoais e sem nenhuma técnica, rs
    Ainda não tive tempo de ler todos os seus posts, mas gostei bastante desse, estava pensando justamente sobre isso esses dias, como o ser humano é capaz de esquecer fatos e depois resgatá-los, muitas vezes sem querer, através de uma música, um cheiro, uma imagem. Eu tenho uma capacidade natural de esquecer tudo que me magoou, é mesmo uma defesa pra não sofrer eu acho, mas qdo algo volta, um dos gatilhos da memória….nossa, aí vem com tudo, rs
    Qto ao Iluminado, eu tinha ouvido falar que S.King odiou a versão do Kubrick e que fez a sua própria, mas não consegui encontrar essa versão pra assistir, é uma pena, pq a curiosidade quase me mata, rs
    Já assinei seu rss pra poder acompanhar. Espero ainda trocarmos boas idéias, e caso goste de romances (Jane Austen, por exemplo, rs) uns meses atrás saiu um post meu no blog Jane Austen em português, foi minha primeira aventura nos blogs e tem um pouco a ver com literatura.
    É isso aí!
    Abraços

  3. NADIA CRUZ disse:

    Poxa, tô emocionada…!
    Linda homenagem ao meu ZIDANE…
    Sua sensibilidade me comove…vc é raro!
    Ótimo texto, sério…muito bommmm!
    Eu e Zidane, sempre teremos Santorini… e eu sempre estarei por aqui…
    Bjs ternos!

  4. Gi Cano disse:

    Oi Arlei, vc tem razão, os autores precisam de um feedback, eu que me sinto sempre muito receosa de expor minha opinião, mas é como vc falou “dar a cara a tapa”, acho que estava precisando disso pra ganhar mais confiança, rs
    Se tiver oportunidade quero ver essa outra versão mas entendo que deve ser bem fraquinha em comparação com uma obra do Kubrick.
    Eu amo J.Austen, admiro muito mulheres que tinham coragem de escrever o que ela escrevia em uma época em que mal podiam sair de casa sozinhas. Admiro muito suas personagens fortes mas muito humanas e sua crítica à sociedade da época…atualmente estou relendo Persuasão, depois de O&P é meu preferido.
    Legal, se ler o post do Jane Austen em português venha comentar por favor, opiniões são sempre bem vindas.
    Abraços paulistanos.

  5. NADIA CRUZ disse:

    ARLEI,
    Desculpa se exagerei nos meus comentários…
    Fique a vontade se quiser apagar…
    Um abraço

  6. ariana disse:

    Esse foi um dos textos mais lindo que eu já li.

  7. Lanyh disse:

    texto lindo…
    Brilho eterno não é um filme é um poema vívido é perfeito (my favorite)

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