Serendipity – Escrito nas Estrelas e em Martha Medeiros

Usamos palavras como instrumento de sobrevivência, para comunicar o que sentimos, queremos e precisamos. Por esse uso rotineiro e prosaico, perdemos a capacidade de perceber sua beleza – assim como o motorista de táxi que vê a torre Eiffel centenas de vezes por dia.
 
   Mas certas palavras podem ser belas, se prestarmos atenção. Algumas pela sonoridade, criando uma sensação de música na pronúncia. Acho a palavra italiana “arcobaleno” (arco-íris) muito bonita, além de algumas palavras da língua portuguesa como “borboleta” ou “pérola”. Em outras, a beleza está em seu significado. É o caso da portuguesa “saudade”, da alemã “habseligktein” (significando as pequenas coisas que trazem felicidade a alguém), e a inglesa “serendipity”.

 

Serendipity é uma palavra intraduzível em português, embora alguns lingüistas proponham o termo “Serendipidade” (uma palavra tão horrível que é preferível usar a original). “Serendipity” significa mais ou menos uma coisa maravilhosa que ocorre por acaso… é usada para definir o momento em que se encontra algo precioso quando se está procurando por outra coisa (ou algo assim – a palavra já foi considerada uma das mais difíceis de ser traduzidas a partir do inglês).

“Serendipity 3” é o nome de um restaurante cult de Nova York, existente desde 1954, muito querido pelos habitantes locais (algo como a Confeitaria Colombo no Rio e o Café Tortoni em Buenos Aires). Por associação com o restaurante, “Serendipity” também é o título de um filme americano de 2001, uma comédia romântica que no Brasil recebeu o nome de “Escrito nas Estrelas” (uma escolha até razoável). O par romântico é formado por John Cusack e Kate Beckinsale. Pessoalmente, considero Kate Beckinsale uma das mulheres mais belas da atual geração de movie stars, abaixo de Rachel Weisz em presença, mas acima em charme (duas britânicas, aliás… God save these queens!). Pela presença de Kate no auge da sua beleza, tenho um apego sentimental por este filme.

Não é um grande roteiro (é uma comédia romântica tradicional), mas é um filme leve e fácil de assistir, com algumas boas idéias espalhadas aqui e ali. A associação entre as sardas da personagem e constelações é muito perspicaz, um artifício romântico no qual eu adoraria ter pensado antes… mas, no final das contas, “Serendipity” repete um conceito comum neste gênero de filme (embora o amplifique ao máximo): o de que grandes amores costumam ser obra do acaso e de algo chamado “destino”.

O franco crescimento de sites especializados em promover encontros, e das próprias redes sociais (que acabam fazendo o mesmo sem cobrar por isso), demonstra que as pessoas parecem ter mais receio do acaso sentimental do que tinham há algumas décadas atrás. É muito comum que homens e mulheres de hoje tentem saber o máximo dos potenciais parceiros antes de assumir maiores compromissos. De uma certa forma, é como escolher um shampoo adequado no supermercado, definir todo o roteiro antes das férias ou só assistir um filme após muitas recomendações e leituras de resenhas. Ou seja, um esforço para evitar a frustração.

Como as relações do século XXI parecem ser mais tempestuosas, passando por repetidas experiências desagradáveis, a busca pelo menor risco de uma nova decepção e de todos os dissabores de um relacionamento que não dá certo justifica o modo pragmático (embora pouco romântico) de se pensar. Sequer é possível afirmar se há certo ou errado neste padrão… na própria natureza, aliás, há critérios bem definidos para escolha de parceiros sexuais entre a maioria das espécies animais. A pavoa assiste ao cortejo de todos os pavões pretendentes e simplesmente fica com o que tem a cauda mais vistosa.

Só que as comédias românticas vão continuar sendo alimentadas pelo conceito “Serendipity” por uma boa razão: o acaso, se não é a mais segura, é a forma mais bela e mais excitante de embarcar em uma relação. Mesmo quem tenha conseguido uma vida amorosa satisfatória a partir de um romance morno e tradicional sentirá sempre um sobressalto no coração ao lembrar de algum caso marcado pelo incomum, pelo inesperado, pelo dramático – ainda que este tenha causado mais sofrimento que realização.

Não somos pavões e pavoas, somos humanos. Não queremos apenas comida, água e caudas vistosas… queremos um pouco de magia em nossas vidas. “Serendipities” ocorrem na vida real, e quase todos adoraríamos topar com uma. Oh, sim, em comédias românticas o drama acaba minutos antes do final, e uma vida sentimental maravilhosa é presumida após os créditos.

A magia, e não necessariamente a felicidade, é o que torna nossas vidas mais ricas. Podem assistir “Escrito nas Estrelas” sem muita autocrítica. Mas não deixem de decorar também o seguinte trecho da Martha Medeiros (que não é de Pablo Neruda, como insistem em dizer na internet – por favor, leiam o post https://polifonias.wordpress.com/2010/11/09/shakespeare-assassinado/):

“Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos”.

E, finalizando, homenagem a Kate e Martha Medeiros… !!!



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7 respostas para Serendipity – Escrito nas Estrelas e em Martha Medeiros

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    Olá ,
    “Achei” vc, através do blog da Martha Medeiros…e tive a curiosidade de visitar seu site…
    Ótimo texto…acho que reflete o momento que vivemos, e que não é fácil, pois acabamos sempre nos sentindo sozinhos, apesar de tantos “cuidados”…
    Voltarei sempre…!
    Também tenho um blog, coisa simples…
    Conheci a Martha, pessoalmente, no lançamento do último livro dela, na quarta passada… e muito bom!
    Parabéns pela sensibilidade, e bom gosto…
    Bjs
    NÁDIA

  2. NÁDIA CRUZ disse:

    Obrigada pela sua visita no meu blog…bacana!!
    Também sou iniciante no mundo dos blogs, pois comecei em julho.
    Terminei o livro da Martha, e gostei muito.Uma visão “feminina” sobre a dor da separação. Não sei se os homens sentem da mesma maneira, seria interessante vc ler.
    Sua opinião, por ser homem, seria importante…
    Agora, vou ler seus outros textos…
    Um abraço,
    Nádia

  3. Fred disse:

    Finalmente consegui tirar um tempo pra visitar teu blog, meu amigo! Te digo desde já que estás de parabéns, em especial pela última postagem.

    1. Porque chego a ter um vídeo marcado como favorito de uma cena desse filme;
    2. Kate Beckinsale e Rachel Weisz… enough said! Hahaha!
    3. Pela atitude exemplar com o tremendo “mal” disseminado na Internet de não procurar a fonte verdadeira das palavras quando são citadas.

    Grande abraço! “Vooooltaremos…”

  4. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Adorei o blog! Vc ganhou uma fã! Esse filme faz parte da minha história. E Martha Medeiros, bom, é Martha Medeiros, dispensa qualquer comentário! Parabéns! Agora, vou “me jogar” nos demais textos. Parabéns!

  5. mariana disse:

    Ótimo o blog ! Excelente o texto!
    Me faz lembrar de um trecho de um livro que fala exatamente sobre isso… A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera…
    “É errado portanto censurar um romance que é fascinante por suas misteriosas coincidências (…) mas é certo censurar o homem que é cego a essas coincidências em sua vida diária. Pois sendo assim, ele priva a sua vida de uma nova dimensão de beleza.”
    Um abraço,
    Mariana

    • arleiro disse:

      Mariana;
      boa lembrança! Infelizmente, e já fui criticado por isso, não li Kundera – já rondou minha estante mas acabou perdendo lugar na fila, que sempre é imensa. Preciso recolocá-lo ali. Mas outro que escreveu com propriedade sobre serendipities e coincidências, embora com outra visão, foi Carl Jung – sua “sincronicidade” é o mais próximo que a ciência já chegou do destino romântico.
      Obrigado, volte sempre, palpite sempre!

  6. eliana nunes disse:

    estava passando por um momento triste ,de separação me avhando culpada e tudo estava muito mau mesmo ,mas lendo os textos da Matha me senti renovada .adoro ler cada vez me sinto melhor o meu preferido é ,eu te amo não dis tudo . ele dis tudo.

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