Um mate com Kafka

Uma situação que materialize paz e bem-estar? Dirigir em uma boa estrada, em paralelo ao sol que nasce, tomando chimarrão.
 
Outros complementos (a música para ouvir, a companhia, etc) podem amplificar a sensação, mas os elementos básicos estão ali: Chimarrão, estrada e sol nascente. Cada criatura tem seu nirvana (ainda bem), e certamente os extra-rio-grandenses jamais compreenderão o que há de tão sublime em água quase fervendo com gosto de mato (assim como jamais consegui entender porque os cariocas acham sublime comer biscoito Globo durante o engarrafamento). Mas sei que muitos conterrâneos endossariam minha visão.
 
Chimarrão é um patrimônio cultural que condiz com o jeito de ser dos nativos. O mate com os amigos, para pôr os assuntos em dia, expressa a socialização e democracia intrínsecas no ritual – mas o chimarrão também pode ser um ícone do intimismo, versão pampeana: o gaúcho a “matear solito” no final da tarde, por exemplo. Pode haver uma “melancolia agradável” no ato de preparar e tomar chimarrão sozinho – ou em dividir um mate em silêncio cúmplice (na sacada, no carro, ao pôr do sol).
 
Franz Kafka era checo, falava alemão e tinha ascendência judaica, mas talvez pudesse gostar de chimarrão. Particularmente, penso que seria uma boa companhia para um mate. Descobriríamos algumas coisas em comum (Kafka era um amanuense apagado que escrevia para fugir da esmagadora mediocridade à qual estava destinada sua vida), outras nem tanto (Kafka escreveu com a originalidade visceral só possível a um gênio) – contudo certamente seria possível dividir o silêncio com ele.
 
Milhares de teses acadêmicas já dissecaram a obra de Kafka, e só um louco teria a pretensão de tentar fazer isso num blog. Do que li de Kafka, pinçarei apenas a suprema agonia de seus “heróis” em não saberem se fazer ouvir. De Gregor S. a Josef K., eles estão enclausurados em suas próprias verdades, incomunicáveis e insignificantes, frente ao mundo (ou sociedade) inevitavelmente opressor. Os personagens costumam ser colocados em situações incomuns, absurdas, que provocam empatia no leitor. A própria obra de Kafka é uma grande mola encolhida, um grito reprimido… daí a paixão que inspira nos leitores modernos, com seus mundos infinitos comprimidos em apartamentos minúsculos (eventualmente, tomando um chimarrão na sala). Eu me encontro entre eles, é esse o gancho pelo qual me cativa.
 

 Franz Kafka morreu jovem, quase anônimo, e com uma produção modesta: não são mais que cinco as suas obras fundamentais. Para quem nunca o leu, recomendo começar com “A Metamorfose”, que é curta e menos angustiante que as demais. Cuidado com “O Castelo”, que pode desencorajar o leitor – algo assim como erva-mate muito amarga.

  

Talvez convidássemos para a mateada a personagem Samara,  da obra “The Ring” do escritor japonês Koji Suzuki (transformada no filme japonês “Ringu” e no americano “O Chamado”) – tal como eu e Kafka, ela também sente uma esmagadora necessidade de ser ouvida, e tendo em vista seus métodos um pouco truculentos, precisa ser convencida a perseguir seu objetivo de modo menos agressivo. Mate vai, mate vem, quem sabe…

Se vivesse hoje, Kafka certamente seria autor de um blog. Ou, por outro lado, talvez não existisse nada parecido com um blog se não houvesse a influência da obra de Kafka… jamais saberemos. Vai um mate??? 

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Uma resposta para Um mate com Kafka

  1. NÁDIA CRUZ disse:

    Vouuuu…rsrsrs
    Aliás, amoooo mate!
    Não o do sul, mas o mate leão, aqui do Rio…rsrsr
    Adoro esse gostinho amargo, no caso, do mate do “Rio”, geladinho…rsrs
    Vai um mate Leão, aí??? rsrsr
    * Ótimo texto!
    Nádia

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