Uma canção sobre amar, sofrer e perdoar

Conta-se que perguntaram  a Picasso como um simples esboço seu poderia valer tanto, já que ele levava menos de cinco minutos para concluí-lo; e o mestre espanhol teria dito “Cinco minutos? Não, levei mais de cinqüenta anos para fazê-lo”. 

A história pode ser fantasiosa… mas uma frase similar do músico americano Don Henley (ex vocalista dos Eagles) é verdadeira: “Levei mais de quarenta anos para escrever esta canção, que agora vou levar pouco mais de quatro minutos para cantar”.

A canção em questão era “The Heart of the Matter”. E poucos seres humanos – talvez Henley esteja entre eles- podem ter grandeza de espírito o suficiente para cantar seus versos com sinceridade.

Ocorre que o homem é, em maior ou menor grau, um ser social. Buscamos como desesperados o reconhecimento dos outros, buscamos segurança e compreensão. Nos apegamos aos outros, sentimos amizade, carinho, amor… e sentimos posse. As redes sociais destacam em suas páginas um espaço dedicado aos “meus amigos”. Há uma grande sutileza no uso do pronome possessivo, pois realmente sentimos os outros como “meus”. Meus amigos, meus amores, meus familiares. Por esta razão, é muito difícil suportar a quebra voluntária destas relações.

Temos uma grande incapacidade em tolerar a rejeição. As páginas policiais estão cheias de atos brutais cometidos por amantes rejeitados, e por certo a grande maioria de nós já sentiu o coquetel de dor, raiva e tristeza (a proporção varia de acordo com cada um) ao descobrir o(a) antigo parceiro(a) nos braços de outro(a).

Um pouco desta sensação é traduzida em “The Heart of the Matter”: a letra, sem nenhuma licença poética, descreve literalmente alguém que acaba de saber, por meio de terceiros, que a ex está com um “novo alguém”. Embalada por uma bela e minimalista linha melódica, os versos seguem com o que parece ser a expressão de um ego ferido, a descrição da dor, da inconformidade e da tristeza… mas repentinamente, no meio do refrão, se detém em dizer: “Forgiveness, forgiveness, even if… even if you don’t love me any more…” (perdoar, perdoar, mesmo se… mesmo se você não me amar mais).

Eu seria piegas e clichê se afirmasse que “o perdão liberta“. Não gosto muito de clichês, então não vou afirmar que o perdão é a suprema resposta (às vezes é necessário permitir a dor e a raiva para sobreviver), mas vou arriscar dizer que aprender a perdoar, neste caso, é uma conquista pessoal. É vencer um animal que habita em nós, um instinto que a maior parte das pessoas consideraria natural – e, sobretudo, é a única forma de começar a buscar uma nova estrada para a felicidade perdida. O grande trunfo da letra é que, após o “perdoar”, segue-se um “mesmo se você não me amar mais” – ou seja, não se perdoa pelo outro, perdoa-se apesar do outro.

Devemos congratular Henley por ter levado apenas quarenta anos para escrever isso. Estou com o pé nesta idade…. E acho que ainda não conseguiria. Vale a pena ouvir Henley (aproveito para recomendar também a obra dos Eagles, country rock legítimo). A propósito, existe também uma versão de “Heart of Matter ” gravada pelo Renato Russo – que era um admirador confesso desta música.

Para quem não captar o sentido, vai aí uma síntese bem livre e bem simplificada da letra:

Eu recebi uma ligação hoje, que não queria ouvir/ mas que eu sabia que um dia ouviria / uma velha amiga nossa me disse ao telefone que você encontrou outra pessoa / e eu pensei em toda a má sorte e as turbulências que enfrentamos / como eu me perdi e como você se perdeu / e nas vozes do lado de fora / que nos fazem jogar fora o que há de bom e pedir um algo mais / Eu estou aprendendo a viver sem você agora/ mas sinto falta de você de vez em quando / Quanto mais eu sei, menos eu entendo / todas as coisas que achei que sabia, estou aprendendo de novo / eu tenho tentado chegar ao fundo, ao que realmente importa / mas minha força de vontade é fraca / e meus pensamentos parecem se dispersar, mas eu acho que o que importa é/ perdoar, perdoar, mesmo que… mesmo que você não me ame mais. / Todos nós precisamos de um pouco de ternura / como pode o amor sobreviver em tempos tão duros / acho que assassinamos a sinceridade e segurança que podem levar à felicidade / orgulho e competitividade não podem preencher braços vazios / e aquilo que eu coloquei entre nós / não me aquece mais/ Estou aprendendo a viver sem você…( repete todo o refrão) / Há pessoas em nossas vidas, que vem e que vão / que nos derrubam e machucam nosso orgulho / melhor deixa-lás para trás, a vida continua / não carregue toda a raiva, ela te comerá por dentro / Estou aprendendo a viver…

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