Voltaire, Rousseau e a Lurdinha do Ponto de Cinema

Voltaire, para os que não conhecem, não é uma marca de cigarro. Pensador europeu do século XVIII, foi tanto um protagonista quanto um passageiro da corrente de pensamento chamada Iluminismo. A obra de Voltaire é citada com destaque na história da filosofia, embora (em minha opinião) a literatura lhe deva prestar maior gratidão.
 
Ele devia ter uma conversa muito interessante, o que nem sempre deveria ocorrer com os filósofos convencionais (Kant, certamente, era um porre). As páginas que escreveu são cheias de uma ironia cortante, plenas tanto de idéias instigantes quanto daquele humor sutil que costuma povoar a leitura de meios-sorrisos. Voltaire poupava pouca coisa (e poucas pessoas) de sua mordacidade, sugerindo que a verdade absoluta é algo etéreo demais para existir. Os “Contos” de Voltaire são uma leitura obrigatória para qualquer ser humano que esteja necessitando descer do pedestal.
 
Seu contemporâneo Jean-Jaques Rousseau, contudo, devia levar-se muito mais a sério: encarava a sociedade como um desajuste da natureza, e o homem como um anjo caído que necessitava encontrar o caminho de casa (e sua obra, apropriadamente, seria o guia Quatro Rodas desta aventura). Voltaire, ao receber do próprio Rousseau uma cópia de sua obra “Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Povos“, percebendo a ênfase de Rousseau em resgatar o homem para um estado mais natural, não perdeu a chance de destilar um pouco de veneno intelectual. Enviou-lhe uma carta nestes termos: “Ninguém jamais empregou tanta vivacidade em nos tornar novamente animais: pode-se querer andar com quatro patas, quando lemos vossa obra. Entretanto, como já faz mais de sessenta anos que perdi este costume, percebo, infelizmente, que é impossível recomeçar, e deixo essa maneira natural àqueles que são mais dignos que vós e eu“.
 
Rousseau não deixou por menos… “Não tente, então, recair nas quatro patas, pois nenhuma pessoa no mundo teria menos sucesso que vós (…) existe no progresso das coisas uma lição escondida que o vulgo não distingue, mas que não escapa em nenhum detalhe do olho do filósofo, quando este se dedica a refleti-la.”
A pendenga entre os dois estende-se por outras tantas cartas, insultos velados e debates acadêmicos que não tenho a pretensão de dissecar aqui. Mas é impossível não se divertir e, ao mesmo tempo, ser levado à reflexões pela rixa pessoal dos dois grandes homens. Apesar de ambos já terem fornecido sua carne a todos os vermes possíveis (começaram a fazê-lo no mesmíssimo ano de 1778, como se um não pudesse sobreviver sem o outro), seu conflito ainda parece uma fonte interminável de assunto para um papo-cabeça.

Bom, não sou um assíduo frequentador da noite santa-mariense, mas muito eventualmente vou ao Ponto de Cinema. Inevitavelmente (pela proximidade das mesas) acabo quase sempre ouvindo fragmentos de conversa alheia. Tempos atrás, ouvi justamente um trio na mesa ao lado discutindo a citada contenda Rousseau x Voltaire, acompanhados de um prato de picadinho e algumas garrafas de Polar. Enquanto isso, mais para o canto, várias balzaquianas pareciam estar alegremente interessadas nas funções do iPhone da mais jovem. Entre uma e outra mesa, a Lurdinha passava a jato como sempre, distribuindo comentários e cervejas aqui e ali.

Voltaire e Rousseau podem ou não ser mais interessantes que um iPhone, depende do contexto. Mas a Lurdinha estabelecia uma conexão entre eles, aproximando-os no mesmo ambiente e sob a mesma canção do Renato Miraihl. O Ponto tem dessas coisas, pode-se esperar encontrar alguns gaiatos pedindo “Toca Raul” ou uma celebração do Bloomsday (por enquanto, nada do Doomsday). Isso é possível devido a vários fatores, mas sem dúvida a alma do Ponto é a Lurdinha, seu perpétuo deslizar por entre as mesas, olho de águia (e ouvidos…) em tudo e em todos. Rousseau teria simpatizado com a Lurdinha, e sua sociedade democrático-naturalista na esquina da Riachuelo com Ângelo Uglione.

Voltaire seria mais irônico, sugerindo que a harmonia está fragilmente apoiada na duração do estoque de cerveja gelada. Mas, fosse como fosse, se não chegassem antes das oito teriam de esperar em pé até vagar uma mesa – e só depois que a Lurdinha autorizasse!

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