Shakespeare Assassinado

Acho que uma das maiores pragas da internet moderna é a falsa citação. Comum, comuníssima em redes sociais e nos malditos e-mails fwd, invariavelmente acompanhados de um Power Point cheio de querubins, cachoeiras ou campos com flores – e uma música “new age” ao fundo. Trata-se de atribuir um texto a alguém que jamais o escreveu, normalmente uma personalidade ilustre. Shakespeare, coitado, é o campeão. A ele, que escrevia em uma linguagem hermética, cênica e com os cacoetes da poesia pós-medieval, são atribuídas pérolas horrorosas de auto-ajuda moderna. Exemplos que devem fazê-lo se revirar na tumba:
 
 
1. Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma … (e etc., é um texto longo. Na verdade, é de autoria de uma certa Veronica Shoftall, até prova ao contrario… Depois de algum tempo você aprende que Shakespeare não escrevia assim)

 
2, Aprendi que não posso e não devo exigir o amor de ninguém.
Posso, apenas, dar boas razões para que gostem de mim e ter a paciência para que o tempo faça o resto. Aprendi também que diplomas na parede não me fazem mais respeitável ou mais sábio, mas que posso tomar o rumo da minha própria vida em minhas próprias mãos (Meu Deus, nem delirando de febre William Shakespeare escreveria auto-ajuda no século XVII!! Diploma na parede!!!?????)

 
3. Descobri que basta uma pessoa me dizer “Você fez meu dia” para ele se iluminar. (Mas o que essas criaturas pensam que Shakespeare escrevia? Cavaleiros são de Marte e cortesãs são de Vênus…????)

E por aí vai, infelizmente… Fernando Pessoa é outra vítima indefesa: segundo os internautas pouco cuidadosos, entre outras coisas ele teria escrito a seguinte pérola: “Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência. ( Será que já falavam em qualidade total e reengenharia de recursos humanos na Lisboa do início do século XX?). Ah, ele NÃO escreveu “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, etc…”

Os nomes de Chaplin, Luís Fernando Veríssimo, Neruda, e até de Einstein costumam ser furtados para assinar tais textos! Já ouvi chamarem estas aberrações de texto-Frankenstein. Por que diabos isso ocorre? Provavelmente para dar um pouco de “imponência” a bobagens e clichês de fundo de quintal. Algo como os belos prédios do nosso incompetente Congresso Nacional.

Mas o fator mais importante para manter essas fraudes circulando pela web é a pouca cultura literária da maioria das pessoas. Duvido que 90% das pessoas que conheço tenha lido uma única linha de Shakespeare, embora tenham “alguma noção”, “de algum lugar” que foi um “algum escritor importante“.

 E basta colocar uma destas frases no google para que apareçam milhões de sites “confirmando” as citações com seus “autores”. Mas na verdade são apenas disseminadores de informações falsas, pois limitam-se a postar e repostar a bobagem que um outro fez, sem nem conferir a veracidade.

Para quem não conhece ter uma noção do estilo, vou colar aqui um texto realmente escrito por Shakespeare: Um trecho do monólogo de Romeu ao ver Julieta (ato I, cena 5 – vou colar o original em inglês e a tradução em português feita pela Beatriz Viégas Faria).

O, she doth teach the torches to burn bright!
It seems she hangs upon the cheek of night
Like a rich jewel in an Ethiope’s ear;
Beauty too rich for use, for earth too dear!
So shows a snowy dove trooping with crows,
As yonder lady o’er her fellows shows.

Ah, ela ensina as tochas a brilhar! / Parece estar suspensa da face noite / Como jóia rara na orelha de uma etíope / Beleza incalculável, por demais preciosa para uso terreno! / Assim como se apresenta a alva pomba em meio a gralhas/Apresenta-se aquela dama em meio a suas amigas.

Pois é… há algo de podre no reino da internet.

OBS: não foi Neruda quem escreveu “Morre lentamente” – o texto é de Martha Medeiros… mas neste caso, ao contrário dos anteriores, talvez o texto esteja à altura do seu falso signatário!

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7 respostas para Shakespeare Assassinado

  1. Pingback: Serendipity – Escrito nas Estrelas e em Martha Medeiros | Polifonias

  2. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Ainda me falta muito pra chegar no seu conhecimento sobre literatura, mas estou caminhando, e chego lá!!! Como sempre (e repetitiva) parabéns pelo texto! Bem esclarecedor!!!

  3. Gisele disse:

    Pô Arlei, assim eu fico nervosa, rs, maior responsa mesmo, rs
    Mas a maioria dos livros que li/comprei ultimamente foi através de boas resenhas que li em blogs. Assim espero que eu tenha feito uma resenha fiel ao livro, rs, e que vc não se decepcione com a leitura (fazendo figas) hehehe
    Bjos e Boas festas

  4. Aline Chaves Vieira da Mota disse:

    Sempre que me mandam correntes com essas falsas citações eu respondo explicando que aquela é uma citação falsa, que aquele texto não pertence àquele autor e etc.. resultado: fiquei com fama de grossa, rabujenta e metida a sabe-tudo!

    Fora o dia em que a pessoinha meu deu como tréplica: “-Mas isso não faz a menor diferença!!” Aí, realmente, não dá pra prosseguir o debate.

    Parabéns pelo blog! Textos muuuuiiiito bons! Leves e com conteúdo!

    • arleiro disse:

      Aline;
      essa tréplica que você citou é realmente fim de conversa… o fato é que a internet (que ainda assim é uma maravilha na difusão da cultura) ajuda a divulgar este tipo de valorização superficial das coisas. Não importar quem é o autor… bom, então vamos assinar Adolf Hitler ou Seu Madruga embaixo de tudo.
      Desculpe o atraso na resposta, obrigado pelo elogio e seja bem vinda sempre. Abração!

  5. Pois é…

    Recebi esta citação como sendo de WS e resolvi conferir. Encontrei diversos sites reproduzindo, encontrei a frase até em letra de música no cifra club, e diversos blogs e sites apontando que não é de Shakespeare, mas o principal de tudo, não encontrei o autor verdadeiro, que pra bem ou pro mal, deveria receber o crédito.

    Pode ser frase anônima, mas o pior é que esta prática de atribuição errônea de autor acaba por transformar todos os textos em anônimos, por dificultar a real atribuição de autoria. Triste isso.

  6. Vanessa Chaves disse:

    Gente, e o coitado do Arnaldo Jabor, cujo nome é usado para assinar qualquer porcaria. Shakespeare e Einstein pelo menos estão mortos e não têm de ver as atrocidades que escrevem em seu nome. Mas deve ser ainda pior quando a pessoa está viva e é obrigada a aguentar tantos textos horrendos sendo atribuídos a ela.

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