Doze homens irritados

Acabo de ter um momento raro, desses que ocorre poucas dezenas de vezes em uma vida toda: assisti a um filme que doravante vai fazer parte de minha lista de “Best of”. 

Chama-se 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men, em inglês). É um preto-e-branco de 1957, do diretor Sidney Lumet. Com menos de cinco minutos, eu já me vi incapaz de levantar da frente da tela.

Por quê me fascinou? Gosto de valorizar o que é incomum, feito com a sutileza das idéias originais. Este filme se passa, praticamente todo, dentro de uma única sala. São os mesmos doze atores em cena o tempo inteiro, e em tempo real – sem deixar de passar um clima de ansiedade e tensão constantes. O argumento é extremamente simples: doze jurados debatem para discutir se um rapaz é culpado ou não do assassinato do pai. É um final de tarde esturricante na cidade (como o deste início de Novembro em Santa Maria), e os doze homens suam e esbavejam. Alguns querem acabar logo com aquilo, esquecendo por completo que estão decidindo se um homem vai ou não para a cadeira elétrica. Quando a primeira votação para decidir o veredito é realizada, onze votam para incriminar o acusado – e apenas um dos jurados (Henry Fonda) manifesta opinião contrária.

Contudo, a decisão só valerá se for unânime. É preciso debater a questão, para irritação de vários dos jurados. Inicalmente, parece que estamos frente a uma brincadeira de dinâmica de grupo, e tudo será chato e previsível. Mas não é o caso.

Não há um único flashback, não é mostrada uma única cena do evento que motiva a cena – o assassinato – não há um único efeito especial, há apenas um tema musical que mal dá as caras durante a exibição. No entanto, o filme não entedia em nenhum momento. O segredo é duplo: as atuações convincentes e o roteiro (mais especificamente, o diálogo) preciso. Filme inteligente, com atores de verdade.

Na verdade, não me considero um cinechato. Gosto de cinema fantasia e, apesar de apreciar cinema cabeça, nem sempre tenho paciência com experimentações artísticas. Mas pequenas obras de arte como essa me chamam a atenção. Costumo aceitar, em primeiro lugar, que um filme me deixou satisfeito, para somente depois buscar explicar o quê. Alguns, confesso, nunca entendi por que cargas d’água me cativaram.

Mas, afinal de contas, tais preferências pessoais são o que nos torna únicos, e nos dão a sensação de importância necessária para continuar vivendo em um universo onde somos só um grão de areia a mais.

OBS: Outro dia escrevo minha lista atual de “melhores filmes”. Esse tipo de coisa sempre requer um carinho especial…

 

 
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Uma resposta para Doze homens irritados

  1. … e leve em conta que é a estréia do Lumet na direção para cinema. Ele fez coisas memoráveis, mas nenhuma tão irritantemente simples e genial como esse teatro filmado que consegue ter o essencial do cinema… movimento, mesmo “enclausurado”. Há uma versão moderna, refilmada com Jack Lemmon interpretando o papel de Fonda que é absolutamente igual no argumento, e um bom filme, mas falta a naturalidade com que a gente acaba sendo convidado para praticamente entrar nessa sala como se fosse parte do júri.
    Baita blog irmão, vou ler sempre.
    Abraço

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