Abelardo e Heloísa

Alguém disse que só existem dois grandes temas na literatura universal, o amor e a morte (e suas caricaturas, o sexo e a violência). Ou seja, já se gastou muita tinta com pouco assunto. “Amor” é a palavra escrita mais abusada da história. Mas nós, mortais  comuns que passam por um, dois, três… ou mais relacionamentos, vamos perdendo o crédito na existência dessa entidade fugidia e pouco palpável. Um pouco como a fada dos dentes. Vamos ficando cínicos, ou, na melhor da hipóteses, descrentes. Segundo um irônico dito popular, relacionamentos são como submarinos: até podem boiar, mas foram feitos para afundar… a teimosia germânica me protege da amargura, e sigo acreditando no que não deveria.

 De qualquer forma, um estudo conclusivo ainda não foi realizado… e a revisão de literatura mostra que nem tudo está perdido. Sinto o dever de contar a história de Abelardo e Heloísa, que contra todas as evidências parece ser tão real quanto a catedral de Notre-Dame.

Abelardo era Pedro Abelardo, ou Petrus Abelardus, nascido na França em 1079. Foi professor de filosofia e teologia (praticamente a mesma coisa na Europa Feudal), tendo desenvolvido seus conceitos próprios no campo da lógica – admitia um modo peculiar de conflito de idéias, que rompia com a tendência dogmática medieval. Abelardo influenciou muitos teólogos dos séculos que se seguiram. Mas, para poder abraçar sua paixão pelas letras e filosofia, Abelardo teve de submeter-se aos costumes da época e manter um padrão de vida monástico, humilde e casto – o empregador de seus sonhos era a própria catedral parisiense, a futura Notre-Dame.

Contudo, lecionar em Paris significou para Abelardo muito mais do que a tribuna com que ansiara por mais de trinta anos: Paris lhe trouxe uma jovem chamada Heloise. Heloise (ou Heloísa) era sobrinha do cônego que hospedava Abelardo, provavelmente uma mulher bela e inquieta. Com certeza, tinha uma mente ativa e um espírito independente. Os dois apaixonaram-se… deve ter sido um romance cheio de emoção e sobressaltos, com o sabor do proibido, potencializado pelo temor de serem apanhados. O que não tardou a acontecer. Naturalmente, Heloísa veio a engravidar. Na comoção que se seguiu, no meio acadêmico e clerical, o frustrado tio de Heloísa armou uma emboscada para seu hóspede ingrato, e ordenou a sua castração, como um castigo pela desonra familiar.

Mutilado e com a carreira destruída, Pedro Abelardo voltou-se para a única coisa que podia aliviar seu espírito (tomar fluoxetina, aprender a dançar tango ou escrever um blog estavam fora do seu alcance na época): entrou para um mosteiro, tencionando dedicar o resto da vida a Deus. Imagino o que tenha passado pela cabeça da atormentada Heloísa: perdera o grande amor, o pai de seu filho e a reputação. A decisão de Abelardo em abandoná-la, somada à sua mutilação, deveriam ser dolorosas o suficiente para tornar a moça uma burguesa amargurada, casada com o primeiro tolo que seu tio encontrasse. Mas algo diferente aconteceu. Heloísa deixou para trás o filho (batizado de Astrolábio – um instrumento para ler as estrelas) e fez exatamente o mesmo que o amor de sua vida: entrou para um convento. Suas carreiras religiosas seguiram caminhos paralelos a partir daí, como demonstram as várias cartas trocadas pelo casal até o fim da vida. Tudo indica que falaram-se pessoalmente muito pouco depois da castração de Abelardo, e embora jamais tenham podido consumar seu amor outra vez, mantiveram-se ao mesmo tempo fiéis a suas escolhas – e um ao outro.

Após um período inicial de revolta por parte de Abelardo, ambos passaram a expressar em sua correspondência um carinho e uma admiração mútua que só são possíveis entre os muito apaixonados. De certa forma, era como se fossem um casal que trabalhava na mesma empresa, em cidades distintas, mantendo contato constante. Com o tempo, e suas ascensões na hierarquia da Igreja, conseguiram viver bem próximos um ao outro, trocando apenas olhares e palavras de carinho até o fim de suas vidas.

Hoje, ambos estão sepultados no cemitério Pére LaChaise em Paris, no mesmo jazigo – um local de peregrinação de enamorados do mundo inteiro. Sua história é citada em várias obras literárias, de Rousseau a Mark Twain, e (além de uma breve menção no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) naturalmente já foi contada no cinema. O filme é de 1988, e chama-se muito propriamente “Stealing Heaven” (no Brasil, foi chamado “Em Nome de Deus”). Não é um grande filme, em que pese a razoável atuação do ator Derek de Lint no papel de Abelardo.

A trilha sonora é datada, e o roteiro força um pouco demais a presumível independência de Heloísa. Mas, talvez justamente por sua falta de pretensão, consegue transmitir um pouco da grandeza da história. É um filme difícil de encontrar, mas se não me engano já topei com ele na Spaço Video. O fato é que os nomes de Abelardo e Heloísa sugerem um pouco de luz no fim do túnel. Mas, sinceramente, espero que o método utilizado para consolidar o romance dos dois já esteja fora de moda.

Sepultura de Abelardo e Heloísa, em Paris

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Uma resposta para Abelardo e Heloísa

  1. heloisa disse:

    adorei a historia de abelardo e heloisa é um romance que demonstra que nada pode acabar com um amor verdadeiro…
    mais o que aconteceu com o filho de abelardo e heloisa

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