Como cães e gatos

 

 
 
Cirurgiões-dentistas são uma classe em queda livre. A Odontologia no Brasil está migrando para um perfil novo, que sinceramente me desencanta. Os profissionais que hoje adentram o mercado de trabalho partem imediatamente para um curso de especialização (na maioria das vezes, um produtor de títulos que não dá mínima para a discussão científica das especialidades), concentram-se em grandes centros e procuram trabalho em órgãos públicos (quando aprovados em concursos, a atual galinha dos ovos de ouro da Odontologia) ou clínicas populares. Vivem discutindo tecnologia americana versus européia, acham que sempre existe um “pulo do gato” em sistemas de resinas e implantes, criam estratégias de marketing para “vender” a si mesmos (com resultados que chegam ao grotesco), e discutem sua produtividade como vendedores de aspirador de pó.

Não sabem fazer leitura crítica, nem analisar produção científica. Aceitam “dicas” e “macetes” de fabricantes, comerciantes e técnicos de laboratório. Vestem roupas brancas tanto no consultório quanto no café da esquina (quando a insensatez adentra a rotina, perdemos a capacidade de nos assombrar com ela), e neste mesmo café encontram-se com outros colegas para “descer a lenha” nos médicos.
Acho pouco provável, atualmente, ingressar em uma mesa com mais de três cirurgiões-dentistas e não ouvir falar mal de médicos.

Trabalhar em um hospital me traz o privilégio de observar, do ponto de vista antropológico, o comportamento destas duas espécies animais similares na forma, mas espantosamente diferentes no conteúdo: o Homo dental e o Homo medicus. E, por isso, acredito que como classe e como profissional da saúde, os médicos teriam muito a ensinar a seus colegas odontólogos. Infelizmente, não vejo perspectivas de que isso ocorra,

Em uma análise primária e superficial, percebe-se que médicos são melhor remunerados, tem mais e melhores oportunidades de emprego, são mais corporativos e independentes. Dentistas e outros profissionais da saúde costumam achá-los mais arrogantes e indisciplinados. Sim, isso tem seu fundo de verdade… mas a vidraça da classe odontológica é muito maior. Ao mesmo tempo em que invejam excessiva valorização de seus colegas médicos, dentistas não se dão por conta que a distância entre as profissões (naturalmente existente) vem sendo acentuada por si mesmos.

São dois os fatores principais: a concentração de profissionais em relação à população alvo (que cria um sentimento de competição e reduz o poder de barganha da classe), e o excesso de tecnicismo na formação profissional.

Atribuo o primeiro à classe como um todo… comparativamente, as entidades de classe médicas possuem maior poder; e efetivamente atuam de modo mais visível. Os Conselhos de Medicina atuam contra a criação de novas vagas em faculdades, enquanto os cursos de Odontologia proliferam de modo espantoso. No Rio Grande do Sul, até 1992, , era possível realizar o curso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Federal de Santa Maria e Federal de Pelotas, além da Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre e Universidade de Passo Fundo. Um total aproximado de quinhentos novos profissionais por ano. Contamos agora com novos cursos em Canoas, Torres e Cacheira do Sul (mantidos pela ULBRA), Santa Maria (UNIFRA) e Santa Cruz (UNISC). Ou seja, dez instituições de graduação, formando em torno de 800 profissionais novos por ano. As faculdades de Medicina também são em número de dez… e eram oito em 1992. Formam-se 800 a 900 novos médicos por ano. Como há uma demanda muito maior por médicos do que por cirurgiões-dentistas no RS, é fácil perceber que algo está errado.

Médicos possuem consciência de classe. Recentemente, TODOS os pediatras do Distrito Federal negaram-se a atender convênios médicos em pressão para elevação da tabela praticada pelos mesmos. Ante a adesão unânime, os convênios não conseguiam profissionais para substituir os pediatras que cessavam o atendimento. Confrontados com a perspectiva de uma multa pesada por paciente não atendido, cederam em poucos dias e atenderam às reivindicações dos pediatras. Não consigo imaginar nada similar na Odontologia… Pelo contrário, haveria colegas doidos para ofertar seus serviços por valores abaixo do estipulado.

Quanto ao segundo fator apontado acima, acredito que cirurgiões-dentistas concluem seu curso com uma perspectiva muito mais limitada do mundo. Médicos parecem ter uma melhor percepção da sociedade, uma maior bagagem cultural, e um engajamento maior em atividades extra-profissionais. Vejo cirurgiões-dentistas muito mais tecnicistas, introvertidos, focados para si mesmos e para as eventuais compensações de seu trabalho. Médicos costumam ter horizontes mais amplos (talvez seja necessário ponderar que, por força da profissão, são forçados a alargar o olhar), e entre vários possíveis fatores eu dou ênfase ao currículo excessivamente técnico e ao ambiente acadêmico autosuficiente que costumam ser a regra nos cursos de Odontologia. Como consequência, não têm no meio dos serviços de saúde ou na sociedade um papel relevante o suficiente para um resgate da profissão.

Enfim, dentistas tem pouco para reclamar aos bispos ou Conselhos de Medicina. Como profissional, sou forçado a admitir que, antes de deitar impropérios a outras classes, deveríamos olhar para o nosso próprio umbigo. Hmmm…. Isso de olhar para o umbigo me faz perceber que há um acúmulo excessivo de gordura abdominal por conta do sedentarismo típico da profissão… Mas isso é outra história.

 

 

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2 respostas para Como cães e gatos

  1. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Olá! Não disse que eu voltava?!?!
    Então, acredito que isso não ocorre somente na área da saúde não. Na minha área, que é a jurídica (sou advogada) vejo isso todos os dias. E já desisti de tentar entender o pq disso acontecer. Acho que o ser humano gosta de se sentir superior e sempre dá um jeitinho de se sentir assim. Resta saber se dormem tranquilos.
    Bjos

  2. bessa disse:

    Esse Arteiro é um piadista,não consegui descobrir o que ele faz,sou dentista trabalho pelo SUS e em meu consultório com muita honra,de uma coisa eu tenho certeza:o caos na saúde pública se deve principalmente aos médicos que não respeitam horários, demandas e seres humanos,clarocom algumas exceções.

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