Tempo de plantar…

Certas pessoas gostam de ter na manga frases de efeito, citações referenciadas ou não, para brindar ouvintes e leitores em momentos apropriados. Algumas delas, pelo uso universal e freqüente, perdem um pouco o impacto desejado. “Amar é jamais ter de pedir perdão” (Segall), “ninguém nunca se banha no mesmo rio duas vezes” (Heródoto),”um país se faz com homens e livros” (Monteiro Lobato), “as mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem” (Shakespeare), etc…

Mas algumas destas pérolas ainda guardam o brilho sob a camada de pó depositada pelas multidões. É o caso da célebre “há um tempo para tudo sob o céu, tempo de plantar e um tempo para colher o que se plantou…” (do Eclesiastes).

Tudo que há sobre a Terra é cíclico… desde a obviedade das fases da Lua até nossa trajetória de vida. Nosso cérebro ocidental, organizado e muito cartesiano, às vezes nos faz acreditar que podemos escrever a crônica da nossa existência de uma forma limpa e ordenada, em linhas retas ou sempre ascendentes. A juventude, aliás, é cega para a natureza sazonal da vida… os mais experientes, contemplando retrospectivamente as idas e vidas da maré em seu passado, conseguem serenidade suficiente para aceitar as idas e vindas presentes e futuras (e ficar mais próximos da paz).

Não apenas porque existe o tempo da alegria e o da tristeza, e nenhum deles é eterno ou invulnerável ao outro – mais que isso, certas fases de nossa vida são como o provérbio bíblico: tempo de semear e tempo de colher. E as fases que costumamos chamar de “negras” (onde tudo dá errado, onde não vemos luz no fim do túnel, onde os sorrisos teimam em escapar) calham de ser justamente aquelas mais propícias para semear.

Ao contrário da filosofia “clássica” de auto-ajuda, segundo a qual o simples pensamento otimista atrai tudo o que há de bom (o “segredo” mais improvável do mundo), o que alguns estudos de fundo estatístico demonstram é que a maior parte dos que estão de bem com a vida é composta por aqueles que, em suas fases “negras”, decidiram acreditar que as coisas estavam ruins sim, precisavam aceitar a realidade e lutar para mudá-la.

A escritora sino-americana (Nobel de Literatura) Pearl S. Buck escreveu a vida toda sobre o cotidiano da China pré-revolução comunista. É uma leitura agradável e muito impactante sobre aqueles que conhecem pouco do modo de vida oriental. Uma de suas obras mais conhecidas, “A Boa Terra”, narra a saga da família do pobre lavrador Wang Lung, atingido pelas agruras da fome, da miséria e da ignorância – mas que, graças a um forte instinto de sobrevivência e uma cultura voltada para a luta pessoal, supera as fases adversas e acaba por tornar-se próspera. De modo geral, todas as grandes epopéias seguem este modelo: o herói, via de regra, é alguém que sofre muito e a partir deste sofrimento mostra seu valor para, enfim, superar a tragédia e a adversidade.

Há um tempo de plantar… e plantar também é sonhar, por que não? Ambas as coisas se completam, deitar a semente ao solo e sentar ao sol para esperar seu crescimento, imaginando a doçura da colheita futura. O tempo de plantar pode ser justamente aquele em que a capacidade de sonhar parece perdida, onde corações machucados se recusam a acreditar na cor sobrepujando o cinza. A mão mais propícia para plantar um sorriso é aquela úmida das lágrimas que acaba de enxugar. Tempo de plantar, tempo de sonhar. Juntos e indissociáveis.

Haverá tempo de colher. Sonhos são dinâmicos, talvez não se colha exatamente o fruto sonhado, talvez seja de qualidade inferior, ou talvez inesperada e deliciosamente melhor que o sonho. Mas o dia chega, tão certo quanto o sol após a chuva ou a onda após o repuxo. E findará, porque haverá outro tempo de plantar… dá para aprender a ser feliz assim, como o agricultor Wang Lung: em tempos de miséria ou fartura, ele valoriza o prazer sutil e incontestável de aquecer-se ao sol na frente da própria casa. À frente dela, uma plantação viçosa sucede a esturricada pela seca, e assim será sempre… mas o sol aquece igualmente a pele sofrida do lavrador. Aliás, embora a vida desta família chinesa esteja permeada pela superstição, mesmo nesta há um senso prático que se contrapõe à nossa mentalidade ocidental religiosamente passiva – por exemplo, embora adorem deuses pessoais e peçam favores a eles, a família de Wang Lung não hesita em xingá-los e abandonar-lhes quando eles não correspondem às expectativas, preferindo resolver as coisas por conta própria a esperar ajuda divina.

Há o tempo de plantar! Há as noites de sono perdidas a velar por uma criança com febre, há a exaustão pelo trabalho extra que se fez apenas para melhorar a vida de alguém, há o esforço para não permitir que a rotina e o cansaço diminuam os gestos de carinho com aquele que se ama… é um tempo de sonhar com o futuro ao lado destas crianças, com a satisfação de quem se ajuda, com a felicidade de quem se ama… e haverá o tempo de colher os sorrisos das crianças travessas, a amizade desinteressada, o amor e companheirismo que resistem ao tempo.

(vamos colher juntos?)

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4 respostas para Tempo de plantar…

  1. Greize disse:

    Nossa que lindo texto, e veio no dia do meu aniversário, dia de muitas indagações….É há tempo para tudo mesmo, debaixo do céu.
    Abraços

  2. ilberto disse:

    Amigo Arlei, sei que não és um adepto das leituras de auto-ajuda. Mas acabaste de escrever um texto daqueles. Eu diria que é um fragmento da Logoterapia, e muito bem-vindo. Wang Lung é um exemplo de superação, mas gostaria de deixar registrado aqui que a sua primeira esposa O-lan foi um suporte incrível para sua caminhada – ela realmente foi uma ou duas muletas, pois a família chegou a deixar a própria terra pelo efeito da seca e tentar sobreviver numa cidade grande. Como o “bom tempo” reativou sua volta para a “boa terra” ocorreu um recomeço – entra aí a persistência e novamente a figura da insuperável de O-lan. Pena que o final me desencadeou um crise de tristeza ou raiva incontida mas afinal ” a vida é para ser vivida”. Ops! acabei de usar uma frase de efeito. Desculpe.
    Abraços
    Ilberto.

  3. Kelly disse:

    Oi Arlei!
    Já estava sentindo falta dos seus textos!
    Ótima dica de livro! Nunca tinha parado pra pensar com esse ponto de vista. E agora, sem dúvidas estou curiosa para ler.
    Abraços!

  4. Belo texto, virei fan!
    Muita lucidez!

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