Abrir a porta do carro

abrindo porta carroNão é uma ação fisicamente complexa; exige apenas dar alguns passos, acionar um alarme ou abrir uma fechadura – portas de automóveis tem alarmes e fechaduras -, em seguida pressionar a lingüeta de abertura da porta, abri-la para a direita  e afastar o corpo para desobstruir o caminho e deixar livre o  acesso ao banco do carona ou à saída. Um suave aceno de cabeça ou das mãos pode (ou não) acompanhar o processo. Assim que a convidada entrar ou sair, fecha-se a porta e está concluída a tarefa. 

Por que abrir a porta do carro para a mulher é um gesto tão controverso? Senhoras e senhoritas sonhadoras queixam-se do esquecimento ou abstenção desse ato por parte de seus consortes; feministas ou mulheres sem frescura queixam-se dos antiquados e melosos cavalheiros que ousam tentar fazê-lo; homens pragmáticos e apressados queixam-se dos resmungos de parceiras que os julgam por não executá-lo…

abrindo a porta do carro

Pessoalmente, gosto de abrir a porta do carro. Não há nada de machista ou conquistador, nem mesmo romantismo principesco no meu ato. Apenas me dá prazer. Está no mesmo patamar de qualquer outro gesto para agradar quem queremos bem: é uma atitude auto-recompensante. Certa vez, quando uma ex-namorada expressou seu desagrado dizendo “que coisa besta essa de abrir porta de carro…”, deixei de fazê-lo. Não fiquei mortalmente ofendido (embora tivesse de me conter às vezes) por ter sido censurado. As coisas me parecem tão simples… quando se descobre que, ao invés de ter uma porta aberta para si, a moça prefere receber SMS antes de dormir (como era o caso), tenta-se satisfazer o desejo sempre que possível (foi o que passei a fazer).

chaplin oferecendo floresEnviar flores, escrever pequenos bilhetes, andar de mãos dadas, beijar em público e outras expressões convencionais de carinho romântico são uma forma de linguagem não verbal, que podem ou não fazer parte de uma convivência amorosa. Gosto de dar e receber muitas destas convenções, mas entendo que isso é cá com minha personalidade e não a expressão de uma lei irrevogável. Aliás, justamente por sua natureza universal, boa parte deles faz parte do repertório de muitos casanovas profissionais, que abrirão portas sempre que considerarem que há uma perspectiva de retorno.

Num relacionamento que deita raízes e envolve de facto os participantes, não é difícil aprender o que agrada e desagrada ao outro – mas isto leva algum tempo. Os clichês românticos cumprem o papel de preencher a necessidade de agradar enquanto este conhecimento não for adquirido – é difícil, por exemplo, que um homem erre ao tentar agradar uma mulher com flores inesperadas (exceto se não tiver o mínimo do mínimo de bom gosto, como enviar violetas de supermercado).

Mas, depois dos primeiros passos, é até um dever procurar construir um repertório de agrados próprio, único para aquele relacionamento. Cabem aí expressões heterogêneas e originais de romantismo, que podem ir desde recados em espelhos de banheiro ou mimos entregues no local de trabalho até (hmm…) outdoors na Serafim Valandro. Além de atingir mais diretamente o gosto da eleita, demonstram que a história daquela relação tem importância e vida própria, diversa de outras relações e flores que a antecederam.

E, por fim, consolidam-se aquelas pequenas formas de agradar que não são mais feitas com intenções de conquista, por obrigação ou por desejo de compensação – e sim por satisfação pessoal e cortesia. Afinal, faz bem à alma paparicar a quem se ama (guardados alguns limites). Estas costumam ser permanentes, docemente rotineiras… e talvez abrir portas de carro seja uma delas.

Confesso que gostaria de ver mais homens abrindo a porta dos carros, mas não por que tal gesto se tornou uma imposição, como o voto ou serviço militar obrigatório. Nem tampouco gostaria de ver mulheres desligando completamente o desconfiômetro porque um descompromissado fauno qualquer aprendeu que abrir portas de carro dá um up na sua imagem.

Por outro lado, o gesto também pode ser interpretado como uma gentileza universal, um remanescente da etiqueta cavalheiresca do passado, mas não sei ao certo qual a opinião das mulheres sobre isso. Na verdade, nem ao menos sei se as moçoilas e senhoritas de hoje ainda se importam com abertura de portas de automóveis – afinal, elas tem seus próprios meios de transporte e não precisam da p** de um homem para abrir p** de porta alguma…

Mas, seja como for, acho bonito.

crianças romantismo

About these ads
Esse post foi publicado em Outras e marcado , . Guardar link permanente.

5 respostas para Abrir a porta do carro

  1. Fred disse:

    Ficam os sinceros cumprimentos aos demais “abridores de portas” espalhados por aí… uma vez mais, simples e extremamente bem escrito, meu amigo! Confesso que foi impossível ler isso e não lembrar da cena do “door test” do filme “A Bronx Tale”, rs… pra quem não conhece, segue o link… como diz na descrição, “A goodfella’s guide to dating”, hahaha…

    Grande abraço!

  2. Gi Cano disse:

    Arlei,
    venho deixar aqui a minha opinião de moça, rs, e eu acho que não saiu de moda e como vc disse, qdo feito como uma gentileza e não obrigação, me faz muito feliz.
    Tenho a felicidade de ter encontrado um marido que pensa da mesma forma e sempre abre a porta para a esposa de forma que, pra mim, isso é muito normal e eu adoro.
    Acho que as mulheres que dizem que é machismo ou que não precisam disso, na verdade se ressentem por não ter quem abra as portas para elas, pq isso nada mais é que um carinho.
    Da mesma forma que nós tb buscamos fazer pequenos carinhos que agradem aos maridos, é como vc falou, uma troca.
    Bjos

  3. NÁDIA CRUZ disse:

    Em meu blog tenho um texto, que se chama “Caçadora de beijos”.Nele eu busquei demonstrações de afeto, em público, nos EUA. Não consegui nenhum…rsrsrsr
    Acho super importante , em qualquer relacionamento de afeto, o carinho público, os mimos, delicadezas, pequenas surpresas, que fazem um bem enorme.
    Abrir portas pra mulheres deveria ser “obrigatório”, em um relacionamento de amor, e vou além, até entre amigos , de sexos diferentes…
    Adoro esse ato, porém são poucos os homens que ainda fazem.
    Continue assim. Afeto, carinho, gestos de educação, nunca vão sair de moda.
    Não se importe se a namorada não liga pra esse ato…um dia vc acha a namorada certa…
    Um abraço
    Nádia

    Não

  4. Fernanda Moraes Catelli disse:

    Bom, eu já não tenho mais palavras, em meu humilde vocabulário, para elogiar o seu blog (quer dizer, você, afinal é tu q escreve), mas, vamos lá à minha opinião: Eu gosto de romantismo, gosto de receber flores e até chocolate, gosto que abram a porta pra mim! E ouso dizer q toda mulher gosta! Umas fazem um charminho, pra dizer q é independente, q não liga pra essas coisas etc. e tal e, outras, simplesmente por insegurança. De qualquer forma, cada vez q eu vejo essa cena por aí, fico feliz, pois, esse, é um casal autêntico, q não tenta de esconder no estereótipos de hj…

  5. Livia disse:

    Venho das Minas Gerais expressar minha opinião. Gentileza nunca sai de moda. Engradece quem recebe e enobrece quem pratica… Que a guerra dos sexos deixe de lado esses picuinhas e se curve mais para os atos puros, sinceros e espontâneos…. Afinal, é desse momentos que a vida feita. Rapazes, se for de bom grado e sincero, continuem abrindo as portas…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s